O que levei e o que trouxe de Moçambique

August 17, 2017 - João Moreira Pinto

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Alguns saberão que estive em Moçambique. (Foi já em Julho, mas um bug informático manteve-me impedido de escrever no blogue. Bloqueio resolvido há minutos.) Tive o privilégio de integrar a 10ª missão humanitária da Health4Moz. A Health4Moz é uma Organização Não-Governamental para o Desenvolvimento que nasceu dum pedido de ajuda da Universidade de Lúrio (Nampula) para melhorar a formação dos seus estudantes de Medicina. Com quatro anos de existência, a Health4Moz já expandiu a sua acção a quase todas as regiões de Moçambique, mas mantém-se focada no apoio à formação pré- e pós-graduada dos profissionais de saúde. Acreditamos na lógica antiga que, mais do que dar o peixe, é importante ensinar a pescar.


Como cirurgião pediátrico e um bocadinho nerd informático, achei que poderíamos inovar. Com a ajuda do departamento de e-learning da Universidade do Porto e com a colaboração dos colegas do Serviço de Cirurgia Pediátrica do Centro Materno-Infantil do Norte, fizemos o primeiro curso de Introdução à Cirurgia Pediátrica, dividido em três partes. Uma primeira parte teórica foi leccionada à distância através do moodle.up.pt, entre Janeiro e Junho deste ano. A segunda parte consistia num trabalho de campo, em que os alunos preencheram um inquérito sobre as necessidade de cirurgia pediátrica a uma família da região. A terceira parte decorreu na semana de 10 a 14 Julho. Eu e a Dra. Fátima Carvalho (minha Diretora de Serviço) fomos à Beira e a Nampula dar as aulas práticas: discussão de casos clínicos, técnicas de sutura e suporte básico de vida em trauma. Formámos 72 alunos e médicos recém-formados de duas faculdades diferentes. Para projecto-piloto não está mau e ficámos com a vontade de repetir e até expandir o projecto.

Prof. Doutora Carla Rêgo, presidente da Health4Moz.

 

Discussão de casos clínicos na Beira.

 

Curso de feridas e suturas em Nampula.

 

Curso de Suporte Básico de Vida em Trauma, em Nampula.

Uma vez em Moçambique, aproveitámos para visitar os hospitais da Beira e de Maputo (onde fizemos escala para regressar para Portugal). Eu nunca tinha ido a Moçambique, mas tinha-me preparado para aquela realidade. Há falta de médicos e de outros profissionais de saúde. Numa população 29,5 milhões de Moçambicanos (metade dos quais abaixo dos 18 anos), existem 2 cirurgiões pediátricos (+ 2 internos em formação) em Nampula e 2 cirurgiões pediátricos ’emprestados’ pela Cooperação Cubana (um na Beira e outro em Nampula). Contas por alto, dá um cirurgião pediátrico por 3,6 milhões de crianças. Em Portugal, (repito que são contas por alto) temos um cirurgião pediátrico por 25 mil crianças (144 vezes mais!!!).

Formandos e formadores na Beira.

 

Formandos e formadores em Nampula.

Mas também existe muita falta de recursos técnicos. Coisas simples macas de transporte, ventiladores para lactentes e recém-nascidos, alimentação parentérica, entre muitos outros exemplos, não existem. Outras necessidades mais correntes como anestésico locais, antibióticos, materiais de penso esgotam com frequência. No entanto, diz-nos quem lá vive que se nota uma maior estabilidade política e mais crescimento económico. Isto, aliado ao empenho na formação de muitos médicos moçambicanos (a constituição de mais faculdades medicinas são reflexo disso), fazem-me acreditar que a qualidade vida em geral e a qualidade da Medicina em particular de Moçambique acabarão por melhorar.

Na minha breve visita a Moçambique, encontrei alunos muito interessados, com grande capacidade de progressão e que se empenharão em melhorar o seu próprio país. Posso ter perdido algum tempo em que poderia estar com a família e alguma actividade privada, mas ganhei muito mais: pela experiência pedagógica, pelas amizades que por lá fiz, pelo conhecimento no terreno de um país que sempre desejei ajudar. Estou mortinho por lá voltar.


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João Moreira Pinto

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