Porque é que não fiz a recolha de células estaminais dos meus filhos?

September 15, 2017 - João Moreira Pinto

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É muito frequente perguntarem-me se aconselho ou não a recolha de células estaminais do cordão umbilical. Amigos e leitores ‘grávidos’ interpelam-me com este assunto sempre que chega à altura de desembolsar umas centenas de euros (não estou a par dos preços) pela promessa da preservação das células estaminais, que um dia poderão salvar o seu bebé de um problema de saúde grave.

 

Antes de entrar na polémica, esclareço que não tenho razão nenhuma para desaconselhar a colheita das células do cordão umbilical. Não prejudica o bebé em nada. Agora, que destino dar a essas células é outra questão? Valerá a pena alugar espaço num congelador durante anos, com o desejo de que nunca venham a ser utilizadas? Ou devemos doá-las à ciência? A decisão cabe única e exclusivamente aos pais e eu geralmente relato o que eu fiz quando cheguei à altura de dar destino às células do cordão umbilical dos meus filhos.

 

Convém esclarecer que a tecnologia de recolha e de preservação de células estaminais continua ainda com algumas falhas: (1) não existe nenhuma garantia que a amostra recolhida na maternidade seja viável; (2) não há estudos suficientes que garantam que as células estarão em condições de ser usadas, quando/se forem descongeladas (principalmente, se se passarem vários anos desde a recolha); (3) as doenças da infância que potencialmente beneficiam do tratamento com estas células são raras e há muito poucas provas da sua aplicação autóloga (ou seja, no próprio doador); (4) mesmo nestas doenças, as células estaminais não são a primeira linha de tratamento (nem segunda, nem terceira opção…); mas sim tratamentos de último recurso e experimentais, quando tudo o resto já falhou. Pesando tudo, a probabilidade do nosso filho beneficiar deste investimento é infinitamente pequena. E esta ínfima possibilidade é muitas vezes o único argumento para a criopreservação em bancos privados. Acresce ainda que, ao preservar as células num banco privado, podemos perdê-las em caso de insolvência do mesmo.  

 

Por outro lado, se todos os pais doassem as células estaminais do cordão umbilical para um banco público, as células seriam devidamente estudadas, armazenadas e utilizadas mediante a sua qualidade e utilidade. Ou seja, algumas seriam colocadas à disposição da comunidade científica para os tais tratamentos experimentais, outras (de menor qualidade ou já a passar de ‘validade’) podem ser utilizadas em laboratório para melhorar o conhecimento sobre estas técnicas. Resumindo, os nossos filhos só vão beneficiar das potencialidades das células estaminais se criarmos e alimentarmos este banco público.

 

Foi com esta lógica que, em 2010, aquando do nascimento do JM, doámos as células do cordão umbilical à Lusocord. Na altura, os pais é que levantavam o kit de recolha no Centro de Histocompatibilidade do Norte e o devolviam depois do parto. Logo, qualquer pai ou Mãe podia doar as células do cordão ao banco público.

[JM com 11 meses, na entrega oficial de Certificados “Sou Dador desde que nasci” da Lusocord, na Ordem dos Médicos]

 

Entretanto, alguns percalços da gestão do banco fizeram com que a recolha, que antigamente podia ser feita em qualquer maternidade, passasse a ser feita apenas no Hospital de São João (Porto), numa primeira fase, e posteriormente alargada ao Hospital Pedro Hispano (Matosinhos), na Maternidade Júlio Dinis (Centro Materno-Infantil do Norte) e no Hospital Prof. Doutor Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra). A grande diferença é que não é possível qualquer pai ou Mãe levantarem o kit de recolha e o devolverem. Logo, bebé que não nasça num destes quatro hospitais não pode doar as suas células para o banco público. Como os meus últimos dois filhos não nasceram em nenhum destes hospitais, não fizemos a recolha das células do cordão umbilical.

 

A Lusocord, entretanto baptizada de ‘Banco Público de Células do Cordão Umbilical’ tem crescido muito lentamente. Não chegou às 500 amostras em 7 anos. «Especialistas dizem que silêncio do Estado sobre criopreservação das células estaminais é cedência aos bancos de criopreservação privados.». Sem querer entrar em teorias de conspiração, acho incrível haver tantos pais a querem ajudar os seus filhos, e os filhos dos outros, e haver tão pouca publicidade ao banco público. Cabe a nós, médicos e pais, passar a palavra.

 

[Antiga publicidade da Lusocord, porque do novo BPCCU nem vê-la…]

 

Mais informações sobre o Banco Público de Células do Cordão Umbilical no website do Instituto Português de Sangue.

 

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João Moreira Pinto

2 thoughts on “Porque é que não fiz a recolha de células estaminais dos meus filhos?

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  • Sandrine

    2017-09-15 at 11:31

    Bom dia, dou-lhe os parabéns pelo excelente artigo!
    Concordo plenamente consigo…os bancos privados fazem de tudo para vender o seu serviço mas a melhor garantia seria fazer a doação num banco público! Efectivamente a aplicação autóloga tem muito pouco sucesso e apenas num banco público poderíamos encontrar uma maior compatibilidade.
    Fiz esta pesquisa em 2010, aquando da gravidez da minha filha mais velha. Os bancos privados não me davam garantias que a amostra recolhida fosse viável, nem garantiam que aquando do descongelamento as células estivessem em condições de ser usadas. Achei que a melhor solução seria a Lusocord mas infelizmente eles não aceitaram a minha doação. Não é noticiado, nem do conhecimento geral que há limitações a essas doações. Infelizmente sofro de artrite reumatóide, doença crónica autoimune, e, para além disso, naquela altura, tinha necessitado de duas transfusões sanguíneas numa cirurgia à coluna devido a um acidente de viação há menos de um ano – posto isto, não pude fazer a recolha na Lusocord e optei também por não esbanjar dinheiro num banco privado que não me dava a mínima garantia.
    Votos de muito sucesso!
    Sandrine

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