Uma carta que ninguém quer receber em casa

November 4, 2017 - João Moreira Pinto

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A licença parental inicial já terminou há 15 dias. Temos estado todos bem e felizmente muito ocupados. Fui trabalhando neste texto, a história mais marcantes dos primeiros dias do AM que não passou de um susto. Mais um dos tantos sustos que os pais apanham com os filhos.

 

É uma carta que ninguém quer receber em casa. Passados 15 dias de nascer o AM, chegou à nossa caixa de correio um envelope do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Para quem não sabe, ‘o Ricardo Jorge’ é o responsável por fazer o teste do pezinho a todos os nascidos em Portugal, mas o laboratório fica aqui no Porto. Este teste serve para rastrear uma série de doenças congénitas que, embora raras, colocam em risco a vida do bebé se não forem tratadas atempadamente. Se o teste for normal, não recebemos notícias do Instituto. Podemos verificar mais tarde no website se efectivamente o resultado é normal, inserindo o código de barras que nos dão antes da alta do bebé,. De qualquer forma, como dizem os ingleses: no news is good news.

 

Quando abro o envelope, salta uma carta a pedir repetição da amostra URGENTE. O coração começou logo a acelerar. Se pedem para repetir, é porque a primeira análise deu alterada. A cabeça de pai-cirurgião pediátrico não parou mais. Mas o que é que correu mal? Que parâmetro estava alterado? Que valor saiu do intervalo normal? Não descansaria enquanto não soubesse mais. Liguei para o número geral que aparecia na carta.

 

Muito simpática a telefonista, percebeu a minha aflição e passou-me ao técnico de laboratório. Expliquei a carta, expliquei a profissão, expliquei que não conseguia ser mantido na ignorância. Passou-me à médica de serviço. Não me lembro o nome da colega, mas foi muito simpática. Explicou-me que o problema estava na TSH (hormona que estimula a tiróide), cujo valor estava «um bocadinho acima». Queriam repetir este teste, porque poderia ser um hipotiroidismo congénito, mas, se o bebé estava bem, que não me preocupasse… «Não me preocupo????», retorqui. Depois seguiu-se uma mini-conversa à volta do eixo hipotálmo-hipófise-tiróide. Eu, que em tempo dei aulas sobre o tema, e ela, que debitava valores de várias hormonas e a forma como elas passavam da Mãe para o filho e como disipavam nos primeiros dias de vida do bebé.

 

Contas feitas, o valor era mesmo muito próximo do normal mas teríamos que repetir a colheita. Fomos nesse mesmo dia ao Centro de Saúde e lá se espremeu o sangue do calcanhar do pequeno. Foram mais 10 dias com o fantasma da análise alterada em pano de fundo. De fundo e muito ao fundo, porque, quando se passa a ter 3 filhos, há sempre alguma coisa que nos ocupa a cabeça ou outras tarefas que temos que resolver em curto espaço de tempo. O cérebro estabelece as prioridades das preocupações que tem que resolver, pelo que aquelas que não controlamos vão ficando para o fundo da lista. Passados 10 dias lá chegou nova carta com o anúncio de que estava tudo bem. O TSH tinha um valor normal. Mais uma preocupação que se riscou da lista. Seguiu-se o caos normal da vida familiar.

 

 

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João Moreira Pinto

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