Como o mais velho descobriu a fraude que é o Pai Natal

January 31, 2018 - João Moreira Pinto

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Passou um mês, e antes que me esqueça (um dos motivos para a existência deste blogue é o esquecimento), quero descrever-vos como é que o JM descobriu a fraude que é o Pai Natal e como é que nós o transformámos em duende.

 

Ponto prévio: eu não gosto do Pai Natal e da maioria do que ele representa. Há todo um texto antigo neste blogue. Para mim, o Natal é sobre (espantem-se) o Nascimento de Jesus. É sobre a Família, é sobre os Amigos, é sobre Ser Solidário, e todos esses chavões que nos habituámos a ouvir, mas é, sobretudo, porque Nasceu Jesus. Por mais beato que me achem, para mim Jesus está no meio de toda esta época festiva e gosto de manter-me fiel a Ele.

 

Entretanto, sem nunca afirmar existência de um Pai Natal, fui alimentando a possibilidade de uma Magia do Natal em que apareciam presentes às crianças. Cá em casa, eles apareciam na noite de 24 para 25, com o Nascimento de Jesus. Mas a ‘casa dos outros’ era visitada por uma entidade misteriosa a quem chamavam o Pai Natal, que eu nunca tinha visto. A título de exemplo, na noite de consoada em casa dos Avós, a luz ia a baixo e ouviam-se sons de sinos, renas e um sinistro Oh-Oh-Oh. A porta batia duas vezes e, quando reacendíamos a luz no quadro, lá estavam os presentes todos na entrada. O facto de um dos avós ou tio-avós não perceberem que a falta de luz fazia parte da encenação e desatarem aos berros de ‘cuidado’, `ah, falhou a luz` e ‘cada um no seu lugar que eu vou ver’, tornava, ano após ano, a coisa muito realista. Era a Magia do Natal.

 

Algures, em Outubro-Novembro, o JM interpelou a Mãe. «É verdade que o Pai Natal não existe?» Não sei bem como, mas ela conseguiu desviar a conversa para a noite… Já os três, o JM queria uma resposta. Eu ataquei de frente. «J, o Pai Natal já não existe. Ele era um velhinho que morreu há muito tempo. São os pais dos meninos que fazem de conta que são o Pai Natal, para que os meninos continuem a receber um presente na noite de Natal, tal como ele fazia.» Fui lendo nos nos olhos do rapaz o corropio de sentimentos antagónicos. Primeiro, quase feliz (um determinado eu-sabia), depois triste, depois muito triste quase-lacrimejante, e logo a seguir furioso. «Mas então mentiram-me. O pai sempre disse que nunca me mentiria!» Desculpei-me, obviamente. Tecnicamente, não era mentira, porque eu nunca afirmei a existência do dito Pai Natal. Apenas fiz barulhinhos e desliguei a luz em tempos sincronizados. Para mais, foi com a desculpa de manter a Magia do Natal.

 

O JM percebeu. Juntou-se à conspiração e prometeu não contar aos irmãos. Este ano, até foi o duende de serviço. Primeiro, ajudou na escolha de presente para os irmãos. Depois, ajudou a escondê-los. Na noite da consoada, ajudou ao transporte dos presentes da cave para a entrada da casa, quando a luz foi abaixo. Naturalmente. Para ele, o Natal não perdeu a Magia. Se houve uma mudança, foi para melhor, porque ele, hoje, toma parte activa nesta Magia.

 

Consequência de termos determinado um ‘Natal longe dos telemóveis’, fiquei sem fotografias ilustrativas do momento aqui relatado. Por isso, deixovos com a fotografia tirada pelo nosso Duende JM. Tem jeito, não tem?

 

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João Moreira Pinto

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