Como detectar e tratar a displasia da anca do bebé?

March 12, 2018 - João Moreira Pinto

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Há muito tempo que não trazia um convidado especialista. O Dr. Nuno Alegrete é um ortopedista infantil meu amigo a quem encomendei um texto sobre a Displasia da Anca, por ser um tema que interessa muito aos pais de recém-nascidos. O Nuno é pai de pai de dois filhos: o João, com 14 anos, e a Sofia, com 11. Desde há mais de 15 anos que se dedica à Ortopedia Pediátrica, tendo, até há pouco, trabalhado no Hospital de S. João. Atualmente, exerce a sua atividade na Casa de Saúde da Boavista e no Hospital CUF Porto, onde é coordenador da Unidade de Ortopedia Pediátrica.

 

Displasia de desenvolvimento da anca

Nuno Alegrete

 

Displasia de desenvolvimento da anca (DDA) é uma expressão que designa um conjunto de alterações que interferem com a estabilidade da articulação da anca e a forma do acetábulo (cavidade onde se encaixa a cabeça do fémur). A expressão “luxação congénita da anca” representa uma perda total do contacto entre as superfícies articulares da cabeça do fémur e do acetábulo e é a forma mais grave do espectro de alterações da DDA.

É frequente os recém nascidos apresentarem alguma laxidez na articulação da anca e uma imaturidade no desenvolvimento do teto acetabular durante as primeiras semanas. Na maioria dos casos essa elasticidade tende a diminuir permitindo que o acetábulo se desenvolva adequadamente. Estes casos, necessitam apenas de vigilância clínica e a sua evolução não traz qualquer problema futuro.

Quanto às ancas luxáveis ou com displasias graves e persistentes, estima-se que a sua incidência se encontre entre os três e os cinco em cada mil nascimentos. Habitualmente apenas uma das ancas está afetada (cerca de 80% dos casos) e quando assim é, a anca esquerda é a mais atingida (3:1).

Por regra, a DDA ocorre em recém-nascidos sem qualquer outra patologia, sendo identificados alguns fatores de risco: género feminino (provavelmente resultante de maior sensibilidade à hormona materna relaxina segregada durante a gravidez), limitação da mobilidade fetal (primeira gravidez, oligoâmnios – pouco líquido amniótico, apresentação pélvica – bebés que se mantém sentados durante a gravidez, elevado peso ao nascer). Outras condições, como a presença de torcicolo congénito, metatarsus adductus e plagiocefalia também estão associadas com maior risco de DDA. A história familiar positiva é outro fator de risco a considerar, sugerindo que aspetos genéticos possam estar envolvidos na génese desta condição.
As características clínicas da DDA são muito variáveis, estando dependentes do grau de displasia e da idade do doente. O exame clínico das ancas nas crianças deve ser efetuado em todas as avaliações de rotina até à aquisição de um padrão de marcha estável (cerca dos dois anos).

 

Fig. 1- Diferença de comprimento dos membros inferiores
Fig. 2 – Desnível na altura dos joelhos
Fig. 3 – Assimetria de pregas em recém-nascido com luxação da anca esquerda
Fig. 4 – Limitação da abdução da anca esquerda

 

 

 

 

 

 

 

 

Como se diagnostica?

No recém-nascido, o exame deve ser efetuado com o bebé calmo e relaxado, deitado sobre uma superfície dura, abduzindo e aduzindo a anca repetidamente para detetar algum ressalto ou movimento anormal. Uma diferença no comprimento dos membros inferiores (fig. 1) ou na altura dos joelhos (fig. 2) quando as ancas estão fletidas, são sugestivos da presença de luxação da anca. A assimetria das pregas inguinais (fig. 3) e glúteas também deve ser valorizada, apesar de presente em cerca de um quarto dos recém nascidos. Um outro indicador de luxação da anca é a limitação da abdução (fig. 4). Existem ainda algumas manobras (Ortolani, Barlow) para determinar a estabilidade e a redutibilidade da anca. A DDA sem luxação pode não ter, por seu lado, qualquer tradução clínica e apenas os exames complementares de diagnóstico poderão fazer a sua identificação.

A ecografia (fig. 5) é a primeira técnica de imagem para avaliar a estabilidade e a morfologia da articulação da anca. É especialmente útil nos primeiros seis meses de vida e é fundamental para confirmar algum eventual achado do exame clínico ou para avaliar crianças com fatores de risco. Permite avaliar a profundidade do acetábulo (através da medição do ângulo alfa) e a tendência à subluxação da cabeça femoral (através da medição do ângulo beta), permitindo classificar as DDA em quatro graus (classificação de Graf), desde o normal até à luxação da anca. Atualmente, em Portugal, recomenda-se a realização de ecografia a todas as crianças com os seguintes fatores de risco: apresentação pélvica, história de oligoâmnios, história familiar, deformidades congénitas do pé, torcicolo congénito, síndrome polimalformativo e assimetria das pregas.

 

Fig. 5 – Ecografia da anca
Fig. 6 – Radiografia mostrando luxação da anca direita

 

 

 

 

 

 

 

A radiografia (fig. 6) é um exame que tem mais valor após o aparecimento radiográfico dos núcleos de ossificação das cabeças femorais (o que acontece por volta dos quatro a seis meses), permitindo determinar a sua posição e a forma dos acetábulos. Tratando-se de um exame estático (ao contrário da ecografia que é um exame dinâmico), não permite avaliar a instabilidade articular.
Outros exames, como a tomografia computorizada ou a ressonância magnética nuclear, raramente estão indicados.

 

Como se trata?

Quando se deteta uma DDA, o objetivo do tratamento é proporcionar uma anca adequadamente centrada, de modo a permitir um ambiente ótimo para o desenvolvimento da cabeça femoral e da cavidade acetabular.

Em crianças com menos de seis meses de idade o tratamento consiste na colocação de talas de abdução, sendo a tala de Pavlik a mais difundida. Esta tala é dinâmica, permitindo abdução e flexão, mas contraria a adução e extensão das ancas e deverá ser usada por um período de 2 a 3 meses, sendo a evolução clínica monitorizada com ecografia. A utilização de dupla ou tripla fralda foi aconselhada no passado para tratar a DDA no entanto, atualmente, está contraindicado o seu uso uma vez que, alem de não ter efeito terapêutico, pode promover a extensão das ancas criando uma posição desfavorável ao seu desenvolvimento.
Entre os seis e os 18 meses de idade, a redução da anca luxada pode obrigar a um período de tração aos membros inferiores, seguida de uma imobilização com gesso durante três a quatro meses. A redução cirúrgica é muito rara nesta idade, mas pode ser necessária caso haja falência da tentativa de redução fechada.

 

Fig. 7 – Criança com tala de Pavlik

 

Após os 18 meses de idade a regra é efetuar uma recolocação cirúrgica da anca, seguida de uma imobilização com aparelho de gesso. Todas as crianças submetidas a tratamento por DDA devem manter vigilância clínica e imagiológica até aos 6 anos de idade.

Como conclusão, recomenda-se atualmente que todos os bebés sejam submetidos a um exame clínico de rotina pelo seu pediatra ou médico assistente. Caso existam fatores de risco ou alguma dúvida no exame físico deverão efetuar uma ecografia de rastreio às seis semanas de vida. Caso persista a dúvida ou exista uma DDA identificada, devem ser referenciados a um Ortopedista Infantil para orientação de tratamento.

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João Moreira Pinto

2 thoughts on “Como detectar e tratar a displasia da anca do bebé?

  • F.

    2018-03-12 at 14:45

    Muito interessante. Enquanto bebé pélvica que foi submetida a este tratamento com gesso durante três meses + aparelho de abdução que era inovador há 40 anos e mãe de três bebés pélvicos (todos sem displasia mas seguidos, ainda assim, para controlo, em ortopedia pediátrica), agradeço a explicação em Português claro! 🙂

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