Cirurgia minimamente invasiva para o quisto sacrococcígeo

August 8, 2018 - João Moreira Pinto

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Acho que já devia ter falado aqui no quisto sacroccígeo há mais tempo, pois é tornou-se uma doença comum da cirurgia pediátrica desde que passámos a tratar os adolescentes até aos 18 anos. É um quisto na região do cóccix que pode apresentar-se com uma fístula por onde sai algum pêlo e pús. Por isso, é comum falar-se em fístula pilonidal, sinus pilonidal ou sacrococcígeo, quisto ou cisto pilonidal, e outras variantes destes nomes.

 

Ao contrário de algumas teorias anteriores, o quisto sacrococcígeo não é congénito. Não é porque o bebé tem uma pequena impressão (ou pit ou sinus) entre as nádegas que desenvolverá obrigatoriamente um quisto sacrococcígeo. Esta doença é adquirida e trata-se basicamente de um pêlo encravado que, pela sua localização e anatomia local, tem tendência a crescer para dentro da pele, inflamar e formar um quisto à sua volta. Sabendo disto, percebe-se que apareçam mais a partir da adolescência, nas pessoas mais peludas* (há um predomínio, no sexo masculino) ou em pessoas passem muito tempo sentados sobre o cóccix, seja pela profissão (por exemplo, motoristas) seja por certos desportos (por exemplo, canoagem) e nos obesos.

A zona inter-nadegueira tem uma conformação que ajuda a que o quisto continue a crescer sem grandes sintomas até ao dia em que infecta e acumula pús. Este pús pode ter que ser drenado (há quem goste de dizer ‘lancetado’) ou sair espontaneamente pela tal fístula que pode fechar, ficar aberta durante meses, ou abrir e fechar de forma intermitente. Seja qual fôr o cenário, o mais provável é precisar duma cirurgia definitiva.

 

A cirurgia clássica para o quisto é tecnicamente simples e consiste na excisão do quisto e dos trajectos fistulosos com sutura da ferida cirúrgica (encerramento primário) ou deixando a ferida aberta para cicatrização por segunda intenção (encerramento secundário). Em qualquer dos casos, o tempo de cicatrização é longo (mínimo de 15 dias), doloroso e muito pouco prático, pois o doente tem que ficar deitado de barriga para baixo durante o tempo de cicatrização. O adolescente fica impedido de ir às aulas, de passear com os amigos, praticar desporto, etc.

 

 

 

 

 

 

[fonte das imagens: msurgery.ie]

Apesar de ser uma cirurgia simples do ponto de vista técnico que se aprende logo no primeiro ano de estágio, ela está associada a uma taxa grande de complicações que vão desde a infeção da ferida, à hemorragia, à deiscência (abertura, desgarre) da sutura, à recidiva (recorrência da doença). Nalgumas publicações internacionais, 40% dos doentes têm novo quisto ou fístula. Por vezes, ele aparece passados vários anos. Portanto, é um bocadinho ingrato para os cirurgiões, que detesta ter complicações. E mais ingrato ainda para os doentes que terão de ser submetidos a mais tratamentos e mais cirurgias.

 

Em 2013, um cirurgião geral italiano (Piercarlo Meinero) apresentou uma técnica endoscópica menos invasiva para o tratamento destes quistos em adultos: Endoscopic pilonidal sinus treatment (E.P.Si.T.). A técnica consiste em aproveitar os trajectos fistulosos para introduzirmos uma câmara com canal de trabalho, que usamos para limpar e cauterizar todo o quisto sem ter que fazer uma grande incisão. No final, as fístulas ‘limpas’ ficam abertas para drenar o líquido decorrente da cirurgia. Em vez de ficar imobilizado durante semanas, o doente sai da cirurgia já sentado e pode levar uma vida normal e sem dor. Da minha experiência, a maioria não toma nenhum alnalgésico após a cirurgia. A taxa de recorrência parece ser semelhante entre as duas técnicas, mas a vantagem em termos de conforto é evidente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu tive a oportunidade de experimentar esta técnica muito cedo e tenho a utilizado desde 2015. Este ano, publicámos o primeiro estudo comparativo desta técnica na população pediátrica no Journal of Pediatric Surgery.

 

*A depilação (em particular, a depilação definitiva por laser) parece diminuir a progressão da doença numa fase inicial e previne a recorrência do quisto pilonidal já operado. Daí, eu recomendar a depilação com creme ou gel depilatório antes da cirurgia e durante o processo de cicatrização após a cirurgia. Um a dois meses após a cicatrização da ferida, recomendo a depilação com laser alexandrite, porque (até ver) é o que se sai melhor nos ensaios clínicos.

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João Moreira Pinto

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