A chuva não mata, molha

Há umas semanas atrás este vídeo tornou-se viral. Realmente, é adorável ver o êxtase desta criança que sente a chuva pela primeira vez. Mas porque nos comovemos tanto com este vídeo? A melhor reflexão sobre ele li num blogue que sigo há muito tempo, o Ver para além do olhar do João Delicado (o blogue e o título do post).

«(..) quando vem a chuva nem hesitamos em dizer que é ‘mau tempo’. Parece que é algo mau em absoluto, que ninguém poderia desejar. E, no limite, mesmo que não fosse útil, fazendo parte da realidade seria sempre algo a aceitar, sem mais. Ora, fazemos isso com a chuva etiquetando-a como ‘mau tempo’ como fazemos também com as dificuldades na vida, classificando-as como ‘momentos maus’, a evitar, a esquecer. E, na verdade, esses momentos têm a sua razão de ser. Ou, no mínimo, fazem parte da realidade e isso basta para que os devamos aceitar.

Não podemos querer viver num mundo sem chuva como não podemos viver num mundo sem problemas. Aliás, devemos dar ainda mais um passo para lá da aceitação e – como a criança que saboreia a chuva – chegar ao ponto de saborear os problemas: porque não? Recebê-los com gratidão porque a vida os trouxe, a pensar em nós. Recebê-los com um arrepio de adrenalina porque estamos a ser desafiados e convidados a dar mais um passo de crescimento. Talvez os problemas nos pareçam ainda demasiado pesados, duros, insuportáveis porque – como com a chuva – ainda os consideramos obstáculos, inimigos, infortúnios. Ainda não atingimos a liberdade suficiente para tornar os problemas numa ‘dança da chuva’.»

As crianças têm esta capacidade de enfrentar os desafios com a vivacidade de quem explora e aprende com a novidade. Muitas vezes com medo, mas sempre com a curiosidade e a garra de quem vai vencer o obstáculo. Vejo muito isso na resiliência das crianças doentes. Por vezes, são doenças horríveis, incapacitantes, monstros que carregam às costas, mas sempre com um sorriso para os pais. Eles procuram aprender na adversidade, arranjam atalhos para as limitações e encontram subterfúgios para o lado mais negro da doença que carregam. As crianças esperam por dias melhores. Nós (adultos) também esperamos por estes dias melhores, mas com menos convicção. Parece que vamos perdendo a esperança, a fé, e deixamos de querer aprender. Não tem que ser assim.

João Moreira Pinto

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