Ai as pedras na vesícula

Foi em 1987 que Philippe Mouret apresentou a primeira colecistectomia laparoscópica video-assistida. Até lá, outros já tinham feito procedimentos de ‘espreitoscopia’ (como dizemos na brincadeira), isto é, faziam algumas intervenções no tórax e no abdómen espreitando através de um tubo de lentes e luz (na verdade, eram já laparoscópios muito semelhantes ao de hoje). Mas foi o vídeo que permitiu a transmissão do que estava a ser visto pelo operador aos restantes membros da equipa e a uma sala cheia de gente que conseguiu ver que o procedimento era passível de ser feito com segurança e reprodutível  Em poucos anos, a técnica descrita por este general francês tornou-se gold standard (tratameno padrão) para o tratamento da litíase biliar (‘pedras na vesícula’). Esta cirurgia foi a grande impulsionadora da laparoscopia no mundo da cirurgia, mesmo em outras áreas. Ainda hoje, quando as pessoas se referem à laparoscopia é frequente darem o exemplo da tia ou do primo que tiraram a vesícula ‘pelos furinhos’ ou ‘por laser‘ (embora não existam raios laser envolvidos).

[fonte: thirdage.com]

Primeiro, o que é a vesícula? A vesícula biliar é um saquinho verde (na figura, em inglês, é gallblader), onde se acumula a bílis – um líquido esverdeado produzido no fígado. A bílis é espremida da vesícula para dentro do intestino, assim que os alimentos saem do estômago para o duodeno (a primeira porção do intestino delgado). E porque é que a vesícula ganha pedras? Não existe uma causa única para o aparecimento de cálculos na vesícula, mas sim um conjunto de factores que podem contribuir para a sua formação. Os principais são: alterações da composição da bílis (quando as suas concentrações ficam desequilibradas cristalizam, originando cálculos), estase dentro da vesícula (isto é, o líquido parado, numa vesícula ‘mais preguiçosa’, permite que os seus componentes cristalizem  e a própria morfologia da vesícula (que pode ter uma anatomia ou uma parede que favoreça a formação dos cálculos).

[fonte: pedsurg.ucsf.edu]

Os cálculos causam dor quando ‘encravam’ à a saída da vesícula não deixando sair a bílis em direcção ao intestino – a chamada cólica biliar. Se houver uma inflamação/infecção, temos a chamada colecistite, que pode obrigar a internamentos prolongados. Alguns cálculos mais pequenos podem encravar mais à frente, junto ao pâncreas, provocando uma pancreatite (doença potencialmente fatal). Por outro lado, sabe-se que só em muitos raros casos (como os recém-nascidos alimentados exclusivamente pela veia durante várias semanas) os cálculos são reversíveis, ou seja, as ‘pedras’ muito dificilmente desaparecem. A única forma de acabar com as ‘pedras na vesícula’ é retirando a mesma. Apesar de ainda haver vários autores (e mesmo sociedades científicas) a recomendar cirurgia apenas se houver sintomas (queixas), a tendência é cada vez mais operar assim que é feito o diagnóstico, isto é, fazer a tal colecistectomia laparoscópica mesmo não havendo queixas. É uma cirurgia preventiva, para evitar as tais complicações graves. E esta tendência surgiu por causa do Dr. Mouret, que descreveu uma forma de tirar a vesícula com reduzida dor, cicatrizes mínimas e baixas complicações, isto é, uma cirurgia minimamente invasiva. Ou seja, os riscos e desvantagens da cirurgia são reduzidos quando pesados contra o risco e desvantagens de uma complicação de uma litíase biliar não tratada. Ou, na perspectiva de quem não concorda com a colecistectomia na ausência de sintomas, o risco cirúrgico é reduzido, mas, ainda assim, maior do que o risco acumulado de uma complicação grave a 10-20-30 anos.

Esta controvérsia é especialmente cara à Cirurgia Pediátrica, onde a colecistectomia laparoscópica antes do aparecimento de sintomas se tem tronado regra. Primeiro, porque cada vez mais as crianças fazem ecografias por tudo e por nada. Logo, mais crianças são diagnosticadas com litíase biliar antes de aparecerem sintomas. Segundo, o tal risco acumulado para uma complicação grave (de que falei em cima) têm sido calculados para 30 anos , mas a esperança de vida das nossas crianças é bem maior do que isso. Este período mais longo significa um risco maior de complicações; muito provavelmente, maior do o risco de uma cirurgia minimamente invasiva.  Ninguém está disposto a deixar uma vesícula com cálculos em quem tem uma vida inteira pela frente.

João Moreira Pinto

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