As meninas também torcem

Hoje, em torno de um testículo torcido, reclamava que »as bolinhas dos meninos só davam trabalho». De facto aqui já se falou de testículos que não descem, testículos que ficam vermelhos, testículos que têm líquido à volta e haverá mais. Mas os ovários (as gónadas, homólogas, do sexo feminino) também dão trabalho e também torcem.

A torção do ovário dá-se geralmente pela existência de um quisto. A maioria dos quistos do ovário das meninas pré-púberes (antes da menarca, ou primeira menstruação) são quistos foliculares simples. Muitos deles são detectados ainda na vida intra-uterina e resultam da estimulação hormonal da mãe, da placeta ou do feto. Se não forem detectados antes de nascer, eles podem apresentar-se mais tarde com sintomas: dor abdominal, massa abdominal palpável, puberdade precoce, entre outros. De facto, os quistos maiores que 5 cm têm um grande risco de torcerem. Quando o quisto torce, todo ovário torce com ele. A irrigação sanguínea fica comprometida e ele acaba por necrosar (“morrer”), originando um quadro agudo parecido com a apendicite aguda. Mas como a tendência natural destes quistos é diminuírem e desaparecerem completamente, pode-se optar por vigiar com ecografia seriadas.

[fonte: riversideonline.com]

Se, na ecografia (ou ressonância magnética ou TAC), o aspecto ecográfico do quisto não é simples, isto é, existem septos ou componente sólida – os chamados quistos complexos, poderemos estar perante uma neoplasia ou um quisto simples que entretanto torceu. Nestes casos, a melhor solução é retirar o quisto, seja por laparoscopia ou por cirurgia aberta. Em 2008, no Congresso Nacional de Cirurgia Minimamente Invasiva, apresentámos uma técnica mista. Depois de esvaziar o quisto por laparoscopia, o ovário é trazido para fora através do umbigo. A excisão do quisto é feita ‘cá fora’, tentando preservar o máximo de testículo ovárico saudável. Fica uma cicatriz de poucos milímetros para a colocação de um instrumento e a cicatriz umbilical para a colocação da câmara de laparoscopia. Para os mais destemidos, o vídeo está disponível aqui.

João Moreira Pinto

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *