Bacteriémia oculta

A convidada especialista desta semana respondeu a um pedido urgente. Muitos leitores deste blogue estranharam o termo bacteriémia oculta, quando escrevi que esse teria sido o diagnóstico que fizeram ao MM no Algarve. A Dra. Liliana Pinheiro que já aqui tinha referido ser «minha colega de curso, neonatologista no Hospital de Braga e uma amiga» aceitou o desafio de explicar do que se trata. Para além de trabalhar no Serviço de Neonatologia do HB, a Dra Liliana dá consulta de Pediatria Geral no Hospital Privado de Braga. É Mãe do G., 6 meses.

Bacteriémia oculta
Liliana Pinheiro

A febre é uma das causas mais frequentes de recurso ao serviço de urgência, gerando nos pais uma grande ansiedade e nos profissionais de saúde um desafio diagnóstico, principalmente nas crianças mais pequenas.

A maioria das crianças que recorre ao serviço de urgência por febre tem idade inferior a três anos e um foco infeccioso identificável. No entanto, em cerca de 20% dos casos, após a colheita da história clínica e de um exame físico cuidado, não se identifica a causa da febre.  Na maioria das vezes, as crianças têm uma doença vírica auto-limitada, mas algumas podem ter bacteriémia oculta e estar em risco de desenvolver complicações bacterianas graves (meningite, sépsis e/ou infecções osteoarticulares).

Mas o que é isto de bacteriémia oculta? A bacteriémia oculta caracteriza-se pela presença de bactérias no sangue de uma criança com menos de três anos de idade e que não apresenta “aspecto doente” nem foco infeccioso identificável. O diagnóstico de bacteriémia oculta representa por isso um grande desafio devido às potenciais consequências adversas que podem resultar do não reconhecimento e não tratamento da infecção.

A bactéria mais vezes encontrada na corrente sanguínea das crianças é o pneumococo e mais raramente o meningococo, a salmonella, a escherichia coli e o haemophilus influenza. Apesar de com a introdução da vacina antipneumocócica conjugada (Prevenar 13) a taxa de bacteriémia oculta ter diminuído, todos os profissionais de saúde devem ter uma postura cuidadosa para conseguir distinguir as crianças que têm “doença benigna” das crianças em risco de desenvolver doença grave.

Muitas vezes a bacteriémia oculta não apresenta complicações graves, podendo mesmo resolver espontaneamente sem ser necessário o tratamento com antibiótico. No entanto, quanto mais nova a criança, maior a probabilidade de ter que ser internada e fazer tratamento antibiótico endovenoso.

É importante o reconhecimento de alguns sinais de alerta para tentar distinguir a criança com doença vírica auto-limitada da criança com bacteriémia oculta tais como: a intensidade da febre, a reacção ao estímulo dos pais, a resposta social, a qualidade do choro, bem como a vacinação contra o pneumococo.

João Moreira Pinto

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