Birras, castigos, consequências e justiça

Como prometido, os ‘Convidados Especialistas’ até ao final do ano serão mães-bloguers. Serão, por isso, convidadas especialíssimas. Hoje, temos a autora de um dos blogues mais úteis da blogosfera. A Boss (como carinhosamente lhe chamo) é a Magda Gomes Dias (Dra.). A Magda tem se dedicado à Inteligência Emocional e ao Coaching, sendo formadora nas áreas comportamentais, desde 2002. Do blogue, nasceu o website Parentalidade Postiva, onde podem encontrar muita informação sobre este tema e as datas para os workshops que ela própria organiza (e eu recomendo vivamente). A Magda é Mãe da Carmen (4 anos) e do Gaspar (9 meses).

Birras, castigos, consequências e justiça
Magda Gomes Dias

Com muita frequência os pais falam-me, com preocupação ou sentimento de impotência, acerca das birras dos filhos.
Com muita frequência usam expressões como ‘ele está a testar-me’, ‘ele sabe o que me tira do sério’, ‘é impressionante, com o avô não faz ele isso’. 
E é curioso como estas frases são mais frequentes em pais de crianças com filhos entre os 18 meses e os 5 anos.
E perguntam-me depois ‘o que é que eu faço nestas situações?’

Então vou contar-te o que eu sei.
Eu sei que, na maior parte das vezes eles não estão nem aí para o ‘desafio’, o ‘teste’ ou a ‘provoção’.
Não?, perguntas tu? E eu respondo-te que ‘não’, e passo a explicar.

As vulgares birras, e choros e ‘os cinco minutos’ do teu filho são o reflexo de uma frustração qualquer. Ou ele não consegue encaixar as peças dos legos, ou ele quer continuar a brincar na piscina em vez de ir embora para casa, ou bem que ele quer, porque quer ir de havaianas para o colégio em vez de galochas. Ele quer isso, ele acha que pode. Tu não deixas. Ele chora, grita, mostra a frustração dele, o descontentamento. Num mundo ideal tudo seria possível. Como não há mundo assim, essa é a forma que ele arranja [e todos eles] para mostrar o desagrado.
Até aqui tudo certo, é fácil e lógico de entender.
Agora vamos pegar num caso concreto.

Hoje decides ir com o teu filho ao supermercado. São as promoções do Natal, está tudo a 50%. Dizes-lhe que vais só entrar, levar o detergente para a loiça e o pacote de guardanapos que está a faltar lá em casa. Dizes-lhe que não vais levar mais nada e ‘temos mesmo de fazer isto a correr, não vou comprar mais nada, não vale a pena pedires ou estares com coisas. ’. E passas a correr pelos corredores que transbordam de caixas cheias de bonecos. Ele quer ver. Tu continuas. Como ele até está calmo, aproveitas para levar mais uns bifes de frango, iogurtes para os lanches e um garrafão de água. E ele começa a ficar chato, birrento. Começa a dizer-te que quer as bolachas do mickey, depois já quer a escova de dentes do homem-aranha e agora quer o dentífrico do cars. Tu percebes que tens de ir embora mas pensas até podias levar mais uns ovos e um saco de arroz, afinal de contas é num instante. Mas ele diz que ‘preciso mesmo da escova do mickey porque a minha já é velha’. E tu dizes ‘pronto, pega lá mas é a última coisa que pedes caso contrário vamos já embora.’

O que é que ensinaste? Ensinaste a testar limites.
Como assim?, perguntas tu.

Disseste que não valia a pena pedir nada.
Ele pediu 3 ou 4 vezes. Tu deste.
Ele percebeu que quando insiste obtém o que quer.

Da próxima vez vai repetir o comportamento. Simplesmente repetir.
Não é um teste, não é uma provocação. É, simplesmente, a repetição de um comportamento.

E isto leva-me à questão dos castigos. Tantas e tantas vezes castigamos os nossos filhos por sentirmos que eles estão a ‘esticarem-se’ [quando tantas vezes fomos nós que os baralhámos, não é?].

Vamos lá de novo pegar num exemplo concreto.

Vais ao supermercado, o teu filho começa a dificultar-te a tarefa e tu pedes que se acalme e se comporte. Ele continua e tu dizes-lhe que caso continue naquilo, da próxima vez não vai contigo.
E ele continua e tu fazes o que tens a fazer e sais [email protected] desse supermercado.
Dali a dois ou três dias decides ir ao supermercado. Ele diz que vai contigo. E tu dizes-lhe que não. Relembras a conversa e lembras que foi ele que decidiu que desta vez não iria contigo [afinal de contas tu deste-lhe a escolher]. E ele chora e diz que se vai portar bem.
A tua decisão [de o levares, ou não] pode ser estruturante e constructora. É uma situação do dia-a-dia e tu tens na mão a possibilidade de retirar o sofrimento/tristeza/frustração do teu filho. E de ti também porque afinal sabes que pode estar a sofrer/triste/frustrado.
Esta tua decisão tem mais impacto do que um castigo proferido dois dias antes como um ‘então quando chegarmos ficas sem ver o Panda’. Isto porque a situação do supermercado nada tem a ver com o Panda. E um castigo mostra que os grandes têm poder – mas não lhe ensina, directamente, a consequência do comportamento e a responsabilidade que ele tem nas decisões que toma.

Quando decides que não o vais levar estás a trabalhar no futuro, também. Da próxima vez, ele vai lembrar-se que ele tem em si o poder de

  1. decidir o comportamento dele
  2. decidir o futuro
  3. tomar uma decisão em consciência porque sabe que a mãe/pai faz bater a bota com a perdigota e não tem de ser má ou sentir-se mal porque vai ter de aplicar um castigo… O que vai acontecer é que ele é que vai escolher. E a escolha é só dele, capisce?

Fácil, não é? Nop! É mesmo muito difícil, sobretudo quando tens de fazê-lo cumprir uma consequência 2 dias depois e quando ele até se anda a portar bem. Asseguro-te que é muito mais duro para ti do que para ele. Ainda assim, esta decisão e atitude é muito mais coerente, justa e ensina muito mais.
E quando é justo, eles aceitam a autoridade dos pais.

[fonte: sobreavida.com.br]

João Moreira Pinto

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