Brincadeiras ao Sol (III)

O quinto Convidado Especialista é o Dr. Fernando Vaz, oftalmologista e pai de 2 filhas, a Margarida (10 anos) e a Carolina (8 anos). É o Director do Serviço de Oftalmologia do Hospital de Braga, Coordenador dos Serviços de Oftalmologia do InstitutoCuf e do Hospital Cuf Porto. Subespecializou-se em Cirurgia Refractiva. Fala-nos dos óculos de sol.

Brincadeiras ao Sol (III)
Fernando Vaz

O Sol chegou. Finalmente. E com ele a eterna dúvida. Óculos de Sol para as crianças: Sim ou não? Claro que sim. Porquê? Desde logo porque é giro. Um miúdo de com óculos de aviador fica mais cool que o Steve McQueen E uma menina com uns óculos D&G fica mais chique que a Audrey Hepburn. Mas devem usar os óculos sobretudo porque, como diria o JM, é «muito importante».

Fernando Vaz com a filha Carolina, com 6 meses

Todos temos consciência que as alterações climáticas nos tornam mais vulneráveis às agressões do meio ambiente. A luz ou radiação solar tem no seu espectro luminoso vários componentes entre os quais a radiação ultra-violeta. São eles que podem causar dano no aparelho visual. Conforme o comprimento onda (por ordem decrescente) podem dividir-se os UV em UV-A, UV-B e UV-C.

Quais são então as lesões oculares relacionadas com a exposição à radiação UV? Dependem da intensidade da radiação (indíce de radiação UV) e pelo tempo de exposição. As lesões agudas são raras. A fotoqueratite, queimadura da córnea, gera dor, intolerância à luz e a diminuição transitória da acuidade visual. A maior parte destas lesões surgem pela exposição a aparelhos de solda ou situações de exposição prolongada aos UV-B como acontece por exemplo na neve. Por isso quando vamos esquiar é obrigatório o uso de óculos de sol. A longo prazo a radiação UV-B contribui para o aparecimento de cataratas e a degenerescência macular ligada à idade. Ambas as situações surgem pela sétima década de idade, e os efeitos cumulativos da exposição ao Sol são factor de risco.

Usamos os óculos escuros para melhorar o conforto visual na presença de luz solar. Isso é importante, certo JM? Mas como vimos a prioridade deve ser proteger a criança de 100% das radiações ultra-violetas (UV-A, UV-B e UV-C) e também devem filtrar a porção azul da luz visível. Essa protecção é ainda mais importante nas crianças porque estas passam mais tempo expostas à luz ambiente do que os adultos e o cristalino, lente natural que existe no nosso olho, das crianças filtra menos luz azul que o dos adultos. Assim 80% da radiação é recebida antes dos 20 anos de idade e 75% da radiação chega à retina antes dos 10 anos.

Por isso todos percebemos que é na infância que é mais importante a protecção à radiação solar. A protecção é obrigatória sobretudo quando o índice de radiação UV ultrapassa um valor superior a 10 (numa escala de 0 a 15).* Em Portugal isso não é frequente sendo a protecção é mais importante em ambientes de grande exposição: regiões próximas do equador, altitude (montanha) e zonas de grande reflexão de luz tal como a neve e o mar.

As filhas Margarida e Crolina (ou será Carolina e Margarida?)

As crianças podem usar óculos de sol em qualquer idade. Mas só o devem fazer quando sejam capazes de os manusear de forma autónoma e quando começa a ter actividade ao ar livre. Mais do que critérios de moda os pais devem certificar-se de vários aspectos relacionados com qualidade das lentes solares:

  1. Filtração de 99-100% da radiação abaixo dos 400 nm (toda a radiação UV). Se possível as lente devem ainda filtrar a radiação entre os 400 e os 500 nm (luz azul)
  2. Boa qualidade óptica para evitar a distorção das imagens.
  3. Coloração capaz de proporcionar conforto na presença de luz, sem ser demasiado escuras para não adulterarem as cores naturais dos objectos e/ou a acuidade visual. A escala de cores oscila entre 0 e 4. Para as condições de luz em Portugal, deve escolher-se uma coloração 2-3. Deve dar-se preferência à cor cinzenta ou ao castanho (âmbar)
  4. A armação e lentes robustas (policarbonato é o ideal) para evitar riscos relacionados com a fractura das lente e/ou armação. A estrutura dos óculos deve estar livre de bordos ou projecções capazes de provocar traumatismo das estruturas oculares.
  5. Estrutura dos óculos deve proteger olhos e palpebral pelo que a armação deve ser grande.

Quando compramos um par de óculos de sol, devemos confirmar a presença do símbolo CE e da inscrição do standard a que obedece a fabricação.Na Europa (e em Portugal) existe um standard próprio (EN-1836 de 1997) que exige o seguinte: identificação do fabricante; número de categoria do filtro; adequabilidade para conduzir. Estima-se que cerca de 30% dos óculos de sol vendidos anualmente sejam ilegais e portanto saiam fora do controle de qualidade imposto pela legislação europeia.

Um par de óculos de sol não tem de ser caro para oferecer uma boa protecção para as radiações UV. Na maioria dos casos o elevado preço de uns óculos de sol tem que ver com a marca. Não é necessário comprar armações nem lentes com o logótipo de marcas conhecidas. O importante é verificar a eficácia das lentes na sua principal função que é a de filtrar todos os raios UV e evitar lentes que não tenham essas especificações ou em que elas não sejam fiáveis pois isso pode ser nocivo para o olho. Em condições de grande luminosidade a pupila diminui de diâmetro para, tal como o difragma de uma cãmara fotográfica, diminuir a luz que entra no olho. Lentes que não filtrem os UV mas sejam escuras, diminuem o reflexo da pupila e permitem a entrada de maior quantidade de UV no olho.

Por isso pais e mães as crianças podem e devem usar óculos de sol mas só em situações particulares tal é obrigatório. Vamos então lá pôr os filhotes a usar mais os óculos de sol. Eles vão gostar de se ver ao espelho e vão sentir conforto. E vão estar protegidos.

NOTA: * O índice diário de radiação UV pode ser consultado no website do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Os negritos foram colocados pelo administrador do blogue. Leia também as Brincadeiras ao Sol I e II.

João Moreira Pinto

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