Cirurgia endoscópica transluminal por orifícios naturais, no tórax e híbrida?!

Sobre o doutoramento propriamente dito, o título estranha-se: Hybrid thoracic NOTES: a translational research project. NOTES significa natual orifice transluminal endoscopic surgery, ou seja, cirurgia endoscópica transluminal (que fura um órgão) por orifícios naturais. Confusos? É normal. Mesmo os colegas médicos pedem-me muitas vezes para explicar exactamente o que andei a estudar (alguns usam o termo «o que andas para aí  a inventar»). Este texto tenta responder de uma forma muito simplista a essas interpelações.

Basicamente, temos endoscópicos que fazem as famosas endoscopias digestivas altas e as colonoscopias que podem ser usados por orifícios naturais (no caso da minha tese era a boca, mas poderia ser o ânus, a uretra ou a vagina), para perfurar um órgão e dessa forma aceder à cavidade abdominal e/ou torácica sem fazer uma cicatriz na pele. No caso, e como queria fazer cirurgia torácica, perfurámos os esófago, para acedermos ao pulmão, ao coração, ao timo e a todas as estruturas que estão dentro da cavidade torácica.

Isto não é novidade, em ambiente experimental, desde 2007, mas até à data do início do meu doutoramento, em 2010, apenas procedimentos simples tinham sido tentados. Como devem compreender furar o esófago de dentro para fora não é fácil e comporta o risco de perfurar estruturas vitais como o coração, a aorta, os brônquios, etc. Daí, a introdução do conceito de cirurgia híbrida, isto é, para além da cirurgia transesofágica (thoracic NOTES) achámos que, se colocássemos uma pequena câmara de toracoscopia através da parede torácica, a introdução do endoscópico pelo esófago seria mais segura. Estaríamos a fazer uma ferida (e consequente cicatriz) na pele, mas, se queríamos fazer cirurgia mais complexa, teríamos sempre que contar com esta cicatriz, pois todas as cirurgias torácicas complexas exigem a colocação de um dreno pós-operatório (nem que seja por umas horas). No fundo, estaríamos a aproveitar uma ferida inevitável para fazer cirurgia torácica por orifícios naturais (hybrid thoracic NOTES).

O desafio destes 3 anos foi realizar procedimentos altamente complexos com sobrevida do animal de experiência. Fizemos lobectomias pulmonares, laqueação do apêndice auricular esquerdo (cardíaco) e timectomia, utilizando o endoscópio flexível introduzido pelo esófago e o toracoscópio introduzido pela pretensa ferida do dreno torácico. Pela semelhança anatómica com o humano, utilizámos o porco como modelo. Para as mentes mais sensíveis ao bem-estar animal (eu sou uma dessas) garanto-vos que todos os ‘doentes’ foram convenientemente anestesiados e analgesiados (sem dor) por uma veterinária credenciada. Para mais, utilizámos (utilizamos sempre) o número mínimo possível de animais, para provar o nosso objectivo. Os resultados que fomos obtendo foram excelentes e provam que este tipo de cirurgia poderá não estar tão longe quanto isso da prática clínica. Deixo-vos a apresentação que fiz: estão lá esquemas e vídeos para perceberem melhor em que consistiram as cirurgias, estão lá resultados, artigos de outros grupos de investigação a trabalhar na mesma área e até algumas experiências interessantes em humanos (vejam aqui o que é o POEM).

Acho que como explicação breve já chega. Assim que a tese completa estiver disponível no repositório da Universidade do Minho, aviso-vos para poderem ler na íntegra. Entretanto, se quiserem ver os artigos completos, podem consultá-los através da Pubmed. Como seria de esperar (cof! cof!) o candidato foi aprovado (não é atribuída uma nota de 0 a 20). Sem falsas modéstias (antes pelo contrário), acho que quer a apresentação quer a discussão correram muito bem. Saí muito satisfeito com o meu trabalho e pude ir de férias descansado. Deixo-vos uma fotografia do grande dia.

O júri e o julgado (da esquerda para a direita): Prof. Doutor Tiago Henriques-Coelho, Prof.ª Doutora Carla Rolanda, Prof. Jorge Correia-Pinto, Prof.ª Doutora Cecília Leão, (agora já) Prof. Doutor João Moreira Pinto, Prof. Doutor Adelino Leite-Moreira, Prof. Doutor Tetsuya Ishimaru e Prof. Doutora Maria Francelina Lopes.

João Moreira Pinto

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