Diga 33, uma última vez

Nunca se perguntaram porque é que os médicos pedem tantas vezes para repetir «33» durante a auscultação pulmonar? É que ao pronunciarmos trinta-e-três estamos a provocar sons vocais repercussivos que viajam por toda a árvore respiratória desde as cordas vocais (localizadas na laringe) até aos alvéolos pulmonares, passando pela traqueia  pelos brônquios, pelos bronquíolos. Quando o médico ausculta em diferentes zonas do tórax é normal haver uma diminuição ligeira do som transmitido à medida que se afasta do local onde o som foi produzido, isto é, do centro/garganta para a periferia. E essa diminuição é simétrica, porque os pulmão direito e o esquerdo ventilam de forma quase igual. Se numa zona houver um aumento súbito da transmissão vocal pode significar a existência de uma patologia respiratória. O mesmo acontece se houver uma diminução súbita.

[fonte: infoescola.com]
Um físico explicaria melhor isto do que eu, mas vou tentar. Julgo ser do conhecimento geral que as ondas sonoras se propagam melhor se houver um contínuo do meio por onde viajam. Pelo contrário, se houver uma diferença muito grande da densidade dos meios (como aquoso-gasoso, sólido-aquoso, sólido-gasoso), dá-se uma quebra brusca da transmissão. Uma experiência que prova isto é falar debaixo de água. Se o ouvinte estiver também debaixo de água, ouve o som transmitido (ainda que não o perceba). Se o ouvinte tiver com a cabeça fora de água (à mesma distância), não conseguirá ouvir o som de quem está a falar debaixo de água. No pulmão é igual, o som vocal é transmitido das cordas vocais ao tímpano do estetoscópio, percorrendo meios com densidades muito semelhantes, isto é, diferentes tecidos humanos: basicamente, cartilagem, pulmão, parede torácica.
Se entre o pulmão e a parede torácica, tivermos ar (pneumotórax) ou líquido (derrame pleural). O som é ‘abafado’. Por outro lado, quando os alvéolos pulmonares estão cheias de líquido inflamatório, como acontece nas fases iniciais da pneumonia. O meio de propagação das ondas sonoras fica mais homogéneo com os tecidos da parede torácica. Logo, a transmissão é mais fácil. É o que acontece nas fases iniciais de uma pneumonia. Quando o doente diz «33», do lado onde se ouve menos entrada de ar (porque os alvéolos em vez de ar têm líquido), percebe-se um aumento da transmissão dos sons vocais. Chama-se a isto broncofonia. Interessante, não?

João Moreira Pinto

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