Estratégia simplificada para largar a fralda de dia e de noite

O problema da fralda (ou melhor da ‘desfralda’) coloca-se muitas vezes na consulta do cirurgião pediátrico. Seja por algum receio de fazer a circuncisão ou outro procedimento peniano antes do desfralde, seja por alguma alteração dos rins o trouxe à consulta, seja porque existe uma preocupação real pela existência de uma enurese (perda involuntária de urina), ou seja só porque sim, é frequente questionarem como ajudar o menino ou a menina a deixar a fralda. Claro que não há uma regra que sirva para todas as crianças, mas existem algumas regras básicas que regem o meu pensamento e que procuro partilhar com os pais que me procuram.

potty-training-readiness

[imagem: pottytraining-boys.net]


1) A criança tem que estar preparada. Perceber quando uma criança tem maturidade para deixar as fraldas dava todo um post, mas tentarei resumir. Para iniciar o desfralde, a criança tem que andar e sentar-se com segurança no pote ou no redutor. Pote ou redutor seria outro post. Em casa temos os dois, porque quer o JM quer agora o MM sempre gostaram de variar. Mais, a criança tem que ter capacidade (falo de desenvolvimento neurológico mesmo) para perceber que tem vontade de fazer xixi (isto é, o sinal eléctrico de bexiga cheia tem que viajar até ao cérebro e a criança tem que saber descodificar esse sinal) e ter capacidade de comunicar essa vontade (seja através da fala ou gestos). Finalmente, tem que ter vontade (drive interno) para deixar as fraldas. Ela tem que sentir que deixar as fraldas é um passo importante para ela, que passará a ‘ser grande’. Sem motivação interna, não há prémio nem castigo que consiga colocar a criança a fazer xixi no pote.

2) É preciso disponibilidade dos pais. Passar das fraldas ao pote, exige uma aprendizagem. Não serve só o ritual de na escolinha colocarem a criança no pote a horas certas. É importante que os pais continuarem esse hábito em casa. Numa fase inicial, os pais têm que sentar a criança no pote de duas em duas horas e esperar que ‘chova’. Idealmente, quando estiver em casa, nem fralda-cueca a criança deve usar, o que obriga a uma disponibilidade para mudar a roupa várias vezes por dia. E, fora de casa, fazer tudo por tudo para levar a criança a uma casa de banho com a frequência necessária e sempre que ela pedir. Ou seja, não facilitar e, «desta vez, faz na fralda».

3) Alinhar uma estratégia com calma e bom senso. Apesar de ser sempre um daquelas metas que os pais querem que os seus filhos cruzem quanto antes (de preferência antes dos ‘filhos dos outros’), tentar fazê-lo à pressa e a qualquer custo pode ser prejudicial. Reforço esta ideia: a criança deve ter maturidade necessária e depois os pais vão ajudar. Os pais (em casa), as educadoras (na escolinha) e os familiares que fiquem com a criança por períodos devem ter a estratégia alinhada. A que eu prefiro é tirar a fralda e sentar no pote a horas fixas (inicialmente, duas em duas horas e depois vamos espaçando mais). A cada xixi ou cocó no pote há uma grande festa. NÃO CASTIGAR. Há crianças que desenvolvem obstipação, porque retêm a urina e, com ela, as fezes. Associam ao «sujo», «porco», ao castigo. Quando há uma inundação, é porque o esticamos a corda mas não há drama, não há castigo, é uma pena mas vamos tentar não falhar na próxima.

4) Deixar a fralda da noite é o objectivo final. A capacidade que cada bexiga tem para aguentar várias horas sem ‘descarregar’ varia muito. Se é verdade na idade adulta, também o é nos mais pequenos. Alguns meninos aguentam facilmente sem ir à casa de banho todas as horas que estão a dormir (8-10 horas), outros têm que esvaziar mais cedo. Umas crianças têm mais dificuldade em acordar para fazer o xixi a meio da noite, outras confundem com sonhos e acham que estão acordados sentados no pote mas na verdade estão deitados na cama… Mais tarde ou mais cedo, este despertar para ir à casa de banho aparecerá (os mecanismos neurológicos acabaram por se formar), mas até isso acontecer existem algumas estratégias que podemos seguir:

  • Não dar nenhum tipo de líquidos apartir das 18h00. Isto inclui não dar sopa (apenas os legumes), nem água. Para a criança não sentir sede apartir desta hora, há quem aconselhe dar-lhe muita água (até um litro durante todo o tempo que estão na escola).
  • Esvaziar a bexiga mesmo antes de ir para a cama. Aliás, a rotina: fazer xixi, lavar mãos e dentes e ler um livro. É a melhor rotina de ‘desaceleração’ para quem quer ter um bom sono.
  • Como referi várias vezes em cima, nunca censurar os deslizes. Lembrem-se que a criança que não desperta não tem culpa disso. Fazer um reforço positivo, premiando cada noite seca (ou mesmo uma semana seca) pode ser uma estratégia válida, mas também não convém exagerar. Reparem que estaremos a reforçar/valorizar algo que a criança não controla. Quando a bexiga der o sinal certo ao cérebro para despertar, o seu filho vai acordar e vai querer fazer xixi fora da cama.
  • Ter calma. A enurese nocturna (vulgo xixi na cama) não é um problema médico até aos 6 anos. E mesmo nesta idade, é normal que o pediatra desvalorize. Dependerá da frequência de vezes que faz xixi na cama, do impacto que tem na vida da criança, de quanto já se empenhou em resolver o problema.
Nota final: Existem algumas doenças que se associam a enurese (perda involuntária da urina), seja esta diurna ou nocturna, que só o seu médico ou pediatra assistente poderão diagnosticar e tratar antes de poder iniciar o desfralde com sucesso. Principalmente no caso da enurese nocturna, que muitas vezes não existe uma causa orgânica identificável, existem fármacos (o famoso Minirin), alarmes e também psicoterapia pode ajudar. Pessoalmente, acho errado avançar para estas soluções antes de esgotadas as estratégias mais inócuas (apresentadas em cima). De qualquer forma, reforço a ideia que cada crianças é uma criança, pelo que a estratégia deve ser adaptada a cada caso em particular. Idealmente, os pais deveria discutir o problema com o médico ou pediatra assistente.
potty-training-636_0
[imagem: reviewxpro.com]

João Moreira Pinto

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *