Filhos quase-gémeos – a nossa história

Hoje, recuperamos uma rúbrica antiga, chamada ‘a nossa história‘. A Mafalda Rio Teles Grilo é uma amiga de longa data, muito antes de ser juiza, antes de ser blogger e ainda antes de ser Mãe de 2 filhotes quase-gémeos. E é a propósito deles e do desafio de ter crianças com menos de um ano de diferença que ela escreve este texto. Posso ter algum viés na avaliação, porque conheço a beleza e a doçura dos dois pequenos. Mas, na minha opinião, o texto está espetacular. Obrigado pela partilha, Mafalda.

 

São gémeos?
Mafalda Rio Teles Grilo

 

– São gémeos?
– Não.- respondo.
– Mas então são muito próximos!

 

Perdi a conta às vezes que ouvi esta pergunta, ao ponto de ter criado a categoria dos “quase-gémeos”, ou “gémeos de anos diferentes”, como um dia me disseram que até estava na moda…

 

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Os meus filhos são muito próximos, de facto! Têm 11 meses e ½ de diferença entre eles. Isto, para quem for rápido de contas, significa que engravidei tinha a Madalena 3 meses, e tendo em consideração que só descobri que estava à espera de outro bebé às 13 semanas de gestação, ainda tudo mais próximo parece.

Mas vamos por partes.

É verdade que sempre quis ter filhos com pouca diferença de idade. Tinha mais ou menos pensado em diferença de 18 a 24 meses. Mas estaria tudo dependente de como corresse a experiência com a primeira.

Foi com surpresa que recebemos a notícia e, não posso negar, choque da minha parte. Pensei, imediatamente, na Madalena, tão bebé, ainda, e com a mãe só para ela por tão pouco tempo – mas o meu marido, que é “gémeo verdadeiro” logo resolveu o meu medo de filha única com um simples “eu nunca tive a minha mãe só para mim!”… estávamos conversados! Vinham aí novos tempos, muito trabalho, muitos medos; mas não havia espaço para dúvidas: era uma grande notícia!

Não posso negar que a partir daí a forma como vivi a maternidade de primeira viagem acabou por ser um bocadinho diferente do que vejo nas outras mães, e mesmo em relação ao que tinha pensado.

Foi inevitável que os meses até ao nascimento do Pedrinho fossem também de preparação da sua chegada. Embora desse toda a atenção do mundo à minha filha, até porque tive a possibilidade de tirar uma licença de maternidade alargada, havia coisas que fisicamente me limitavam. Para além disso, o meu pensamento estava muito direccionado para o futuro, no sentido de perceber como seria a nossa vida com os dois, e facilitá-la.

Até saber do meu caso confesso que não conhecia muita gente com filhos tão próximos: depois de me acontecer a mim as histórias sucediam-se. Percebi, então, que era possível e que na maior parte das vezes as pessoas me relatavam as histórias como experiências felizes.

Acho que foi a partir daí que encarei o que estava a acontecer como uma coisa normal e que a melhor maneira de lidar com os dois bebés era dar-lhes essa normalidade.

Assim, mal o Pedrinho nasceu passei a integrá-lo totalmente na nossa vida. Dei de mamar à frente da Madalena, dei colo aos dois em frente um do outro, mantive-os aos dois em casa comigo, explicava a um e ao outro tudo o que fazia.
Fico até hoje com a sensação de que a Madalena não percepcionou a mudança como a chegada de alguém que lhe roubou espaço. Neste tempo todo nunca me apercebi de qualquer cena “clássica” de ciúmes como às vezes me relatam em crianças mais velhas. Claro que a partir do momento em que o Pedrinho começou a fazer “graças” ela se apercebeu que havia ali outro foco de atenção que já não se limitava a dormir e a chorar para beber leitinho. Passou pela primeira vez a competir por atenção e a mostrar que também sabia fazer coisas. Mas com essas graças surgiu também o companheiro de brincadeiras, a companhia preferida, a pessoa que partilha com ela o quarto, a casa, os pais, os avós.

Nunca notei um retrocesso na Madalena. Quando o Pedrinho nasceu a Madalena tinha começado a andar há 15 dias. De resto, eram poucas as aquisições em termos de autonomia, por isso, também acho que não havia muito por onde retroceder.

Uma coisa que nos ajudou bastante foi o facto da Madalena já dormir a noite inteira e adormecer cedo…isso nunca mudou!

Ao fim destes dois anos de vida a quatro, posso dizer que o balanço é o mais positivo possível.

 

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Não tenho pretensões a dar conselhos àqueles para quem uma aventura destas está a começar, até porque cada bebé é único. Ainda assim, se tivesse que elencar as minhas dicas, resumem-se a isto:

  • Rotinar. Criar rotinas permitiu-nos saber com o que contar, de forma a gerir os tempos de cada um dos bebés e também os nossos tempos; sou uma paranóica das rotinas e não me arrependo. Para quem tem duas crianças pequenas as rotinas são as melhores amigas de todos em casa;
  • Ajudar. Permitir as ajudas, deixar que nos ajudem e pedir ajuda quando precisamos. Vai haver dias de extremo cansaço, de menos paciência e até para evitar que lá cheguemos é importante contarmos com os outros e não nos exigirmos de mais;
  • Manter. E com manter quero dizer que entendo que não devemos alterar a forma como lidamos com um filho só por causa do outro. Acho que se encararmos a situação como normal o filho mais velho vai perceber que está tudo bem, está tudo seguro, que não tem mal a mãe pegar no bebé ou dar-lhe de mamar, que ele já está mais crescido mas também já foi assim e que agora também precisa do amor dos papás (sou terminantemente contra os “esconde-esconde” que deixam as crianças em choque se algum dia são confrontadas com a realidade);
  • Integrar. Integrar o mais velho nas tarefas, dar-lhe importância e mostrar que o seu papel também é fundamental em casa para ajudar (no meu caso concreto esta integração chegou mais tarde, porque na altura do nascimento do irmão, a Madalena ainda não tinha capacidade para pequenas tarefas, embora eu já as solicitasse, explicando “o que é”, “como se chama”, “para que serve”).
  • Dividir. Aqui entra a célebre divisão de tarefas. Fundamental, a meu ver. Somos dois pais, temos dois filhos e, portanto, há que olhar para a vertente útil da equação. Se a mãe amamenta um, então o pai dá biberão ao outro (ou a papa, ou a sopa). Se a mãe faz o jantar, o pai dá os banhos… claro que nem sempre isto se compadece com os horários familiares, o regresso ao trabalho, etc. Mas, então, nessa altura há que recordar as “rotinas” e as “ajudas”.
  • Simplificar. Descomplicar e não ter medo. Lembro-me da primeira vez que saí com eles à rua: um no marsúpio, o outro no carrinho! Fez-se… para aí por 10 minutos! Mas no segundo dia já é mais fácil, e por aí fora… O que acho é que devemos optar por roupas simples, fáceis de mudar, mochilas às costas e “destralhar”. Embora às vezes seja mais fácil, ficar enfiado em casa com dois pequenos não pode ser a opção de todos os dias, e nem sempre temos gente por perto (Neste ponto carrinhos de gémeos são óptima solução, mas no meu caso não cabiam no elevador!)

 

Ao fim de 18 meses em casa voltei ao trabalho. A Madalena e o Pedrinho ficaram os dois juntos com as avós por mais 6 meses. Aos 2 anos da Madalena ela foi para o infantário e deixamos o Pedrinho com as avós por mais um ano. Foi deliberado mantermos esta separação, porque achamos que o mais novo também precisava de um ano de atenção. De facto, ao contrário do que se possa pensar, acho que o mais novo foi sempre o mais “negligenciado”. As suas necessidades eram mais prementes mas mais básicas e o seu primeiro ano foi um bocadinho na sombra da irmã.

Agora estão os dois na escola. Recuperou-se silêncio cá em casa. Já não há biberões e há poucas fraldas. Dormem-se noites completas. Os nossos bebés conversam, comem sozinhos, têm amigos de cada um, mas são os melhores amigos.
Há apenas dois anos esta casa era um caos. Dois anos passados ainda é, mas só às vezes. Como é que isto aconteceu?

 

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João Moreira Pinto

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