Je suis Luísa

Há dias, li este artigo de opinião do José Diogo Quintela. Pelos vistos, alguns pais sentem-se ofendidos pelo poema ‘Abecedário sem juízo’ e querem que sejam retirados dos programas. Eu tenho pena, porque a Luísa Ducla Soares é uma das autoras favoritas dos meus filhos. Tem uma forma muito divertida e rítmica de escrever. Diz muitas coisas ‘disparatadas’ (como diria a minha falecida avó), mas, exactamente por serem ‘disparatadas’ exigem uma explicação. O JM interrompe muitas vezes. Ouve, pergunta, discutimos o que não percebe, reflectimos juntos. Seja na leitura, seja no que vêem na televisão ou na Internet, os nossos filhos são expostos a muitas notícias e opiniões que não concordamos. Como pais, temos que ter destreza e mente aberta para explicá-los.

Eu percebo que as pessoas não concordem ou até se sintam ofendidas com algumas frases de alguns autores, com alguns textos, com alguns livros. Daí a proibi-los, ameaçar quem os escreve, criar ondas de protesto e indignação para apagá-los do mapa (veja-se o que aconteceu ao Henrique Raposo), parece-me exagerado. Assusta-me a ditadura do politicamente correcto. Em Portugal temos (ainda) liberdade suficiente para discordarmos uns dos outros. E, no que a mim diz respeito, lutarei sempre por esta liberdade dos outros dizerem e escreverem coisas que eu não concordo.

Em jeito de conclusão, deixo-vos um dos nossos textos favoritos da Luísa Ducla Soares. Sem polémicas:

Numa noite escura, escura,
o sol brilhava no céu.
Subi pela rua abaixo,
vestido de corpo ao léu.
Fui cair dentro de um poço
mais alto que a chaminé,
vi peixes a beber pão,
rãs a comerem café.
Construí a minha casa
com o telhado no chão
e a porta bem no cimo
para lá entrar de avião.
Na escola daquela terra
ensinavam trinta burros.
O professor aprendia
a dar coices e dar zurros.
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[fonte: wook.pt]

 

João Moreira Pinto

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