Livre de perigo (I)

Há dias, a minha Mulher deixou-me uma mensagem no facebook de profundidade intensa mas disfarçada. «Keep calm and blog on». As Mulheres (estas de M grande) são mesmo assim. Lêem-nos nas entrelinhas e ultrapassam todas as barreiras para nos vir abraçar, apoiar, confortar. Nos dias anteriores ao nascimento do Manuel, principalmente com a ameaça de parto pré-termo, apoderou-se de mim um nervoso miudinho. Ser médico, especialmente na área pediátrica, dá-me ferramentas para lidar com a maioria dos problemas da saúde doméstica, mas acrescenta muita preocupação. Conheço demasiadas doenças congénitas, muitas sem diagnóstico pré-natal, demasiadas complicações peri-natais, demasiados casos tristes, os quais preferia não viver. Diz-se que ‘quem não sabe, é como quem não vê’. Sabendo, não conseguia travar a preocupação crescente sobre o que poderia acontecer no dia do parto do MM. Já fora assim aquando do nascimento do JM, pelo que a Mãe percebeu este meu sofrimento. Apesar de estar em repouso absoluto por indicação médica, ter que acelerar as últimas preparações pré-parto e carregar uma barriga que lhe causava dores dia e noite, fez de tudo para me acalmar. «Keep calm and blog on». Como quem diz, enquanto escreves, entretens os pirolitos. Força.
São 9 meses a planear o dia do nascimento de um filho. Onde nascer? Quando nascer? Que mensagem enviar? A quem? «O MM já nasceu. Pesa não sei quantas gramas. Mede uns tantos centímetros. Mãe e bebé estão bem». Mas não estão. Ou melhor, não estavam. À última da hora, mensagens secas pelas lágrimas de uma Mãe que chorava. O mundo aos trambolhões pela escada abaixo.

O MM pregou-nos um grande susto, nestes primeiros dias de vida. Nasceu perfeitinho. Tudo que eram doenças cirúrgicas que o pai opera foram descartadas pelo próprio (pai). Mas havia um gemido, um cansaço respiratório, um aumento da frequência ventilatória, o que mais tarde viríamos a saber ser uma taquipneia transitória do recém-nascido. Esta doença deve-se a um atraso na reabsorção do líquido pulmonar fetal eventualmente associado a algum grau de imaturidade pulmonar. A primeiras noites do MM foram passadas nos cuidados intensivos neonatais. A mãe longe, despedaçada, sofria as dores da cirurgia e as dores de não poder ver o bebé, quanto mais pegar-lhe ao colo. Eu a meio, de um lado para o outro no corredor, disfarçava mal a minha preocupação. Estes olhos que a Mãe já aprendeu a ler. «Keep calm and blog on».

A recuperação foi lenta. Seria sempre lenta. Os pais querem ver os seus filhos bem, rapidamente. Nunca é suficientemente rápido. O MM precisou de suporte ventilatório, CPAP. Esta ventilação não exige sedação nem entubação, pelo que o rapaz manteve-se desperto o tempo todo. A pressão de ventilação é fornecida por uma máscara adaptada às narinas do bebé. Seja como fôr, vivemos horas de grande ansiedade. Nestes anos todos, questionava-me como se sentiriam aqueles pais à porta da neonatologia. Preferia não ter sabido. Ver o nosso rebento cheio de sondas, catéteres e adesivos é assustador, mesmo para quem está habituado a ver isto todos os dias. Pior foi voltar a casa sem o rebento nos braços. É um sentimento de vazio insuportável.

O fim-de-semana foi de grande tempestade, mas a bonança foi vindo lentamente com os primeiros raios de Sol desta Segunda-feira. Depois de dois dias ligado àquela máscara de ventilação, o MM começou a respirar sem ajuda e a iniciar alimentação. Apesar de manter alguma dificuldade nas mamadas, hoje o MM dormirá em casa. Está livre de perigo. É isso que nos interessa por agora.

Os primeiros dias de vida do MM.

João Moreira Pinto

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