Mamã, eu quero (III)

O nome dos dois posts anteriores é, como poderão ter percebido, uma alusão à cantilena «Mamã, eu quero mamar». Escrever «mama, eu quero» parecia-me mais adequado, mas menos politicamente correcto. Ainda assim, não tão pouco politicamente correcto como o que se segue.

Efectivamente, tudo indica que o leite materno é o melhor alimento que a criança pode ter nos primeiros 6 meses de vida. As alternativas, os chamados leite de fórmula ou ‘da farmácia’, por mais evoluídos que estejam, não batem as capacidades nutritiva, imunológica e até afectiva do leite materno. Por estas vantagens serem hoje tão evidentes, cada vez mais mulheres optam por amamentar os seus filhos. É bom para a criança. É bom para a mãe que amamenta. É péssimo para quem não quer ou não pode amamentar.

Existem impedimentos médicos, psicológicos, laborais, ou de outra ordem qualquer, que podem impedir uma mãe de amamentar. Umas vezes a opção de não tentar é feita logo à partida, outras vezes desistem precocemente de o fazer, outras vezes há que, por mais que tentem amamentar, não querem, não gostam, não se adaptam, não conseguem. Felizmente, estas são uma pequena minoria, mas vi mães a viverem autênticos filmes de terror com a amamentação. Fossem eles por dor, por mastites, por discussões com a sogra, com as amigas, berros, choro. Mais, para além de queixas sobre a pressão social, ouvi relatos incríveis sobre a pressão de alguns profissionais de saúde. Num caso, deixaram a criança à fome, apesar da insistência da Mãe que não queria amamentar por opção própria. Cabe a nós, profissionais de saúde, explicar o que é melhor para a criança, mas há infelizmente exageros.

Costumo dizer que «são precisos dois para amamentar». A Mãe não desempenha um papel menor no acto. Ela quer o melhor para o seu filho. Na maioria das vezes, o facto de não amamentar acompanha-se de um sentimento misto entre a culpa e a frustração. Ela lá terá as suas razões. Por mais fúteis que estas possam ser, o amor de uma Mãe não está em causa. Na minha opinião, forçar, reprovar, comentar, só piora a situação. Uma Mãe para quem amamentar é um calvário poderá viver com o seu filho uma maternidade traumática, pelo menos nesta fase inicial. O aleitamento materno é importante, mas há coisas bem mais importantes na vida destas duas criaturas. Os primeiros 6 meses são um pequeno trecho de uma vida que começou 9 meses antes e tem uma eternidade pela frente. O Amor vai ter tempo de ser provado e comprovado, vezes sem conta.

[na imagem, a Mãe e o MM com 31 semanas de gestação; fonte: soniabritophotography.com]

João Moreira Pinto

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