Manchinhas de princesa

A Medicina tem isto de bonito. Como é que a simples observação dos efeitos laterais de um fármaco usado há dezenas de anos faz pequenas revoluções ainda nos dias de hoje.? Foi apenas há 5 anos, em Junho de 2008, que um grupo de médicos de Bordéus publicou uma carta ao editor do New England Journal of Medicine. Nela relatavam uma evidente diminuição dos hemangiomas de doentes com cardiopatias complexas tratados com o propanolol – um beta-bloqueador há muito tempo usado na prática médica e conhecido do grande público pela sua primeira marca comercial, o Inderal.

[fonte: nejm.org]
A imagem pode impressionar um bocadinho, pelo que clique aqui se quiser vê-la maior.

Os hemangiomas infantis são tumores vasculares. Os mais comuns na criança. Estima-se que afecte 5-10% dos bebés. São perfeitamente benignos, existindo apenas um ou dois casos relatados de degeneração maligna. A maioria aparecem na pele, embora possam aparecer noutras regiões do corpo, como o fígado, cordas vocais, etc. Muitos deles são pequenos e escondidos dos olhares alheios, outros são muito inestéticos, outros sangram, outros têm localizações incómodas ou que impedem o normal desenvolvimento da crianças. No exemplo dado pelos autores, o hemangioma impedia a abertura normal do olho, atrasando o desenvolvimento normal da visão, por falta de estímulo).

Os hemangiomas infantis têm uma história natural muito característica e curiosa. Eles podem aparecer como uma pontinha vermelha ao nascer, mas só se notam verdadeiramente quando começam a evoluir/crescer, já nos primeiros meses de vida. Esta fase de crescimento (fase evolutiva) pode durar até 8-12 meses. Posteriormente, todos eles regredirão. Daquele aspecto vermelho vivo e volumoso passarão a ter um aspecto de hematoma em absorção. Ele vai diminuindo e ficando pálido. No final, passados 4-7 anos (dependendo do tamanho), notar-se-á apenas uma excesso de pele local com uma pequena alteração da cor ou tecido vascular residual. Classicamente, apenas se tratavam os hemangiomas mais graves, os tais sangrantes, inestéticos ou incapacitantes para o desenvolvimento do bebé. Fazia-se com corticóides em altas doses com o preço dos efeitos laterais que eles acarretam para crianças tão pequenas, nomeadamente diminuição das defesas do organismo e atraso no crescimento. Aos restantes, esperava-se que aumentassem, depois diminuíssem e retirava-se o tal tecido residual (caso ficasse ‘feio’).

Desde o anúncio de que o propanolol diminui o crescimento (e eventualmetne acelerar a regressão) dos hemangiomas, há uma tendência a usá-lo em mais casos e desde o aparecimento do hemangioma, impedindo que ele cresça tudo o que cresceria. Tratando-se de um fármaco destinado a problemas cardiológicos é normal que possam haver efeitos laterais a esse nível. Daí, a maioria dos autores recomenda uma avaliação por cardiologia pediátrica, antes e depois de iniciar o tratamento. Em todo o caso, é necessário avaliar o risco-benefício para cada doente e discutir todas as opções terapêuticas com o cirurgião. Nas lesões maiores pode ser necessário associar os já citados corticóides, fármacos anti-neoplásicos ou até avançar para cirurgia mais precocemente. Em pequenas lesões, a terapêutica com laser pode ser opção. Segundo a imprensa, terá sido esse o tratamento utilizado na ‘manchinha’ da Infanta Leonor.

[fonte: everyone.web]
Imagem que correu Mundo e é responsável por ainda hoje chamarmos manchinhas de princesa‘ aos hemangiomas das meninas. 

João Moreira Pinto

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