Moleirinhas, craniossinestoses e plagiocefalia posicional – o que devemos saber

Numa tentativa de retomar a rúbrica dos convidados especialistas, convidei a Dra. Joana Oliveira, neurocirurgiã pediátrica que trabalha no Hospital de São João e no Hospital da Arrábida. É Mãe de uma menina de 8 anos. Pedi que me respondesse a algumas perguntas que me têm chegado ao e-mail sobre as deformidades do crânio. O texto está uma categoria e parece que a maioria das dúvidas sobre as moleirinhas, as plagiocefalias posicionais e as craniossinestoses ficarão esclarecidas. 

Craniossinestoses
Joana Oliveira

A craniossinostose é uma condição patológica que resulta do encerramento precoce de uma ou várias suturas cranianas, podendo, para além da questão estética, levar ao aparecimento de complicações neurológicas, mais frequente quando existe envolvimento de mais de uma sutura.

O crânio desenvolve-se a partir da interposição óssea ao longo das linhas de sutura, assim, quando uma sutura encerra precocemente, o crânio não cresce na direção perpendicular a esta sutura, resultando numa deformidade do crânio, que variam de aspecto conforme a sutura envolvida.

O normal é que, ao nascer, o recém-nascido apresente os ossos do crânio separados por suturas e duas aberturas no topo, denominadas fontanela anterior e posterior, conhecidas popularmente como moleirinhas. As principais funções dessas estruturas são: facilitar a passagem do feto pelo canal vaginal no momento do parto e permitir o crescimento adequado do cérebro. Posteriormente estas aberturas fecham-se naturalmente.

O formato da cabeça pode variar de indivíduo para indivíduo, de acordo com características familiares. Aquando do nascimento, é  comum o recém-nascido apresentar deformações na calota craniana que são consequentes da compressão no parto ou da utilização de auxílios no parto (ventosa). Contudo, dentro do primeiro mês a cabeça retoma o formato normal.

Durante o primeiro ano de vida, o cérebro atinge metade do tamanho que terá quando adulto e finaliza o seu crescimento no final do segundo ano de vida. A fontanela anterior é maior do que a posterior e também é a que encerra posteriormente, ocorrendo por volta do 9° ao 15° mês de vida, enquanto que a fontanela menor normalmente encerra no 2° mês de vida.

As craniossinostoses dividem-se em sindrómicas (associadas a síndromes e frequentemente envolvem mais que uma sutura) e as não sindrómicas. A grande maioria das craniossinostoses são esporádicas (não sindrómicas). Esta patologia ocorre mais frequentemente em crianças do sexo masculino.

O diagnóstico é realizado por meio do exame físico da cabeça do recém-nascido, juntamente com o exame radiológico e avaliação por neuroimagem. Estes exames evidenciam o encerramento da sutura e as possíveis malformações dos ossos da face e/ou do sistema nervoso.

Conforme a sutura envolvida existem diferentes tipos de craniossinostoses. Assim , existem as seguintes craniossinostoses:

  • Escafocefalia (sutura sagital): 40-55 %
  • Plagiocefalia anterior (sutura coronal, unilateral): 20-25%
  • Braquicefalia (sutura coronal, bilateral): 10%
  • Trigonocefalia (sutura metópica): 5-15%
  • Plagiocefalia posterior (sutura lambdóide): 0-5%

Todas as crianças com suspeita de craniossinostose devem ser avaliadas pelo neurocirurgião pediátrico. O tratamento das craniossinostoses é na grande maioria das vezes cirúrgico, no qual se cria espaços ou suturas entre os ossos do crânio. A avaliação pelo neurocirurgião determinará o melhor timing, sendo geralmente realizada antes do ano, ano e meio de vida.

A cirurgia é necessária por basicamente 3 motivos: risco de aumento da pressão dentro da cabeça e sofrimento cerebral que pode levar a regressão do desenvolvimento neuro-psicomotor; alterações oftalmológicas que podem cursar com perda de visão; e por estética. Este último motivo é de extrema importância, mesmo que de maneira inicial possa ser relevado pelos familiares, pois estudos psicológicos mostram que as crianças sofrem com perda da auto-estima e dificuldade de aceitação pela sociedade.

A cirurgia apresenta bons resultados em mais de 80% dos casos e técnicas modernas de anestesia, e do próprio procedimento permitem que este seja feito com segurança, apesar da pouca idade da maioria dos pacientes.

A craniossinostose posicional – plagiocefalia posicional – é a presença de uma deformidade que se assemelha a uma das formas descritas, não havendo contudo encerramento da sutura. A grande maioria das plagiocefalias posicionais não necessitam de tratamento cirúrgico e corrigem com o crescimento do cérebro e as seguintes medidas:
  • Mudanças de posição de dormir
  • Correção torcicolo (nos casos em que há diagnóstico de torcicolo congénito)
  • Almofada ortótica
  • Capacete ortótico
Quando há suspeita de deformidade craniana a avaliação e orientação pelo Neurocirugião pediátrico determinará o correto diagnóstico e tratamento.

João Moreira Pinto

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