Necessidades basais

Faz hoje uma semana que tínhamos o MM internado. Já sem necessidade de ventilação assistida, mas com dificuldades em mamar. Aguardávamos os mínimos ‘olímpicos’, para ganhar o passaporte para casa. Estes mínimos eram as necessidades basais, isto é, os líquidos necessários para manter as funções vitais do organismo. Quem já teve um filho internado por vómitos ou recusa alimentar poderá já ter ouvido falar deste termo, pois, quando a criança não ingere o suficiente ou não retém nada no estômago, essas necessidades basais terão que ser garantidas através de soro endovenoso (pela veia).

Todos que me lêem terão a noção que uma criança doente é uma criança que come menos. Existem poucas excepções a esta regra. Uma das coisas que preocupa os pais é saberem se o pouco que come é suficiente ou se precisa de ‘fazer soro’? O primeiro passo é olhar para o estado geral da criança. Se a criança vomita ou recusa alimentação mas mantém-se activa, não é preocupante. Por outro lado, uma criança letárgica (isto é, paradinha, caída) é um sinal de alarme, pois pode significar desidratação. Outros sinais de desidratação fáceis de detectar são a língua seca, os olhos encovados e o choro sem lacrimejo.

O segundo passo é calcular se o que a criança consegue beber é o suficiente para não desidratar, isto é, se estão garantidas as tais necessidades basais. Eis as contas que devemos fazer:

  • bebé com mais de 28 dias e menos de 10kg – as necessidades basais são 100ml por kg de peso em 24h. O recém-nascido é um caso à parte e exigirá sempre uma consulta médica.
  • criança entre os 10kg e os 20kg – as necessidades são 1000ml pelos primeiros 10kg + 50ml por cada kg acima dos 10kg em 24h. Isto é, uma criança de 15 kg, precisa de 1000ml + 250ml (=1250ml) em 24h.
  • criança acima dos 20kg – as necessidades basais são 1500ml + 20ml por cada kg acima dos 20kg. Um exemplo, uma criança de 25kg, precisa de 1500ml + 100ml (=1600ml) em 24h.
É de notar que, se a criança tiver febre, existe uma perda de água pelo calor, o que aumenta as necessidades basais (mais 10% por cada grau acima da temperatura normal, isto é, 37,5ºC axilar). Obviamente, a existência de vómitos ou diarreia, são formas de perder de líquidos que terão que ser acrescentados aos valores calculados acima. O mesmo se houver hemorragia ou outra perda de fluídos corporais, casos que eu aconselharia o transporte imediato ao hospital.
De qualquer forma, as contas ajudam os pais a saberem quanto é que a criança precisa beber para não desidratar. Vamos a um exemplo; um bebé de 6 kg com uma amigdalite que lhe dificulta a deglutição (engolir). Desde que ela se mantenha sem febre (com a ajuda de antipiréticos, se for preciso), as necessidades basais dela serão 600ml em 24h. Se ela fizer 6 refeições por dia, bastar-lhe-á ingerir 100ml de 4/4h, sejam estes mililitros de leite, água, sopa ou soro de hidratação oral. Até curar a doença, o bebé com amigdalite vai comer mal, mas, desde que beba 100ml de líquidos (o que equivale a apenas 6,7 colheres de sopa, ou cerca de um iogurte) em 6 refeições durante o dia, ela não desidratará. Não esquecer que todo o tipo de comida não líquida, fruta, gelatina, arroz, etc, tem uma percentagem grande de água, pelo que deverá ser tida em conta também.
Posto isto, não custa nada pegar já no peso dos seus filhos e ter as necessidades basais calculadas. No dia em que um deles ficar doente, ficará mais tranquila (ou tranquilo) se tiver a certeza que ele não está a desidratar.
[fonte: declubz.com]

João Moreira Pinto

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