O fantasma do apêndice (I)

Uma das maiores preocupações que os pais têm quando a criança tem dor de barriga é a de saber se pode ser o início de uma apendicite aguda e, consequentemente, ter de ser operada. Efectivamente a dor de barriga costuma ser o primeiro sintoma de uma apendicite aguda. Ela costuma iniciar-se à volta do umbigo e e ir descendo para baixo e para a direita (até à fossa ilíaca direita, FID). Geralmente, os vómitos aparecem depois. E a febre aumenta lentamente. (Sobre febres e o facto de as altas nos preocuparem menos que as baixas, leia aqui).

A apendicite aguda é uma inflamação de uma porção do intestino, chamado apêndice ileocecal, pois fica na transição entre a porção mais distal do intestino delgado (o íleo) e a porção inicial do intestino grosso (o cego). Esta inflamação pode ter várias origens: um fecalito (pequena porção de fezes duras) que encrava dentro do apêndice, um aumento das placas de Peyer (aglomerados de células imunitárias do intestino) que entope a base do apêndice, uma infecção por bactérias como acontece noutras partes do intestino (que pode acontecer também no apêndice), uma reacção auto-imune como acontece na Doença de Crohn, entre outras mais raras.

[fonte: webmd.com]

O importante é que o apêndice ileo-cecal, sendo uma estrutura tubular ‘cega’, vai ficando cheia de pús até explodir (perfurar). A partir desse momento temos, literalmente, o caldo entornado. O pús espalha-se pelo abdómen da criança e existe uma deterioração do seu estado geral. Felizmente, isso só acontece passadas 24 horas, na maioria das crianças. Esta história natural da apendicite aguda permite-nos estar a alerta mas ter uma atitude cautelosa ao mesmo tempo. Apesar de haver ainda quem defenda que existem estados de apendicite crónica, sabemos que as apendicites de instalação aguda não resolvem por si. Assim, os sintomas clássicos (a dor, a febre e os vómitos) descritos em cima vão se instalando progressivamente e piorando na sua intensidade. Este destino pré-traçado da apendicite permite-nos ir avaliando a criança periodicamente por um intervalo de tempo de quase um dia, com toda a segurança. Se a criança vai melhorando da dor de barriga é pouco provável que seja uma apendicite aguda.

Sobre isto, é importante saber que quer os marcadores inflamatórios pedidos nas ‘análises ao sangue’, quer a ecografia abdominal não nos dão o diagnóstico definitivo de apendicite aguda. É a palpação abdominal pelo médico seriada (ao longo do tempo), auxiliado ou não por estes dois exames, que indicará a necessidade de operar. A dor muito focalizada na FID com contractura dos músculos abdominais (um dos primeiros sinais de inflamação intra-abdominal) pode ser apenas notada passadas uma horas do início dos sintomas e são indicação para cirurgia.

Apesar de algumas vozes mais ‘tradicionailistas’, a abordagem cirúrgica inicial aceite como padrão é a laparoscopia. Isto é, a introdução de uma câmara de vídeo pelo umbigo permite confirmar o diagnóstico de apendicite aguda. Com a colocação de mais um ou dois trocares (vulgo furinhos), podemos introduzir e manipular os instrumentos necessários para fazer a apendicectomia (retirada do apêndice). Depois de tirar o foco infeccioso serão necessários fazer antibióticos para debelar completamente a infecção intra-abdominal.

[fonte: childrenshospital.org]

Não querendo entrar em demasiados pormenores técnicos, as vantagens da laparoscopia não são apenas estéticas. Estes poderão ser as que mais têm impacto nos pais. Mas, para a criança, a laparoscopia significa menos dor, menos carga anestésica, melhor recuperação da actividade normal no pós-operatório, uma ida mais precoce para casa.

João Moreira Pinto

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