O fantasma do apêndice (II)

Depois de percebermos o que é, como evolui e como tratar uma apendicite aguda convém guardarmos na algibeira uns conselhos práticos de como lidar com a dor de barriga dos pequenos. Assim, o que devemos fazer perante uma dor abdominal?

[fonte: appendicitisinchildren.net]

Primeiro, contextualizar. Houve muitas lambarices no dia anterior? Vomitou? Tem febre? A subida térmica acompanha-se de algum grau de contracção dos músculos abdominais, o que simula uma dor de barriga que passa assim que baixamos a febre. Assim, passemos ao segundo passo: aliviar a dor.

A analgesia da dor abdominal (principalmente antes de ser avaliado pelo médico) deve ser feita com paracetamol (ver doses aqui). Os anti-inflamatórios, como o ibuprofeno (vulgo Brufen) fragilizam a mucosa gástrica, o que pode levar a agravamento da dor ou transferí-la para uma posição epigástrica (local do estômago). Para além disso, alteram (ainda que ligeiramente) a capacidade de coagulação do sangue, o que pode ser prejudicial na necessidade de cirurgia.

Como expliquei no post anterior, temos tempo. Depois do paracetamol, a febre (se existia) baixou, o que permite reavaliar se temos ou não uma verdadeira dor abdominal. Se a criança vomitava, tentamos hidratá-la com água ou chá açucarado, às colherzinhas. Para alguns estas duas atitudes podem ser surpreendentes, mas vos garanto que o paracetamol não oculta a tal contractura abdominal na fossa ilíaca direita (sinal inequívoco de apendicite aguda) e beber golinhos de água não protela a cirurgia mais que 2-4 horas (por razões anestésicas). Assim, peço-vos não deixem as crianças a sofrer com dor nem a desidratar, só porque querem ser vistos por um médico antes.

Finalmente, é preciso ir reavaliando, na expectativa de que apareçam um ou mais dos sinais de alarme de apendicite aguda. Os sinais de alarme, como o próprio nome indica, são sinais que nos devem fazer recorrer ao serviço de urgência, para ser avaliado por um médico. São eles:

  1. Dor abdominal que deixa de ser generalizada, tipo cólica, à volta do umbigo, e passa a ser fixa, à direita, geralmente dificultando a marcha. Tipicamente, a criança manca, de forma a evitar o contacto do pé direito com o chão.
  2. Vómitos persistentes ou recusa alimentar. Este último até tem maior significado clínico, pois a perda de apetite pode aparecer antes da dor abdominal. Mais, criança com fome muito provavelmente não terá apendicite aguda.
  3. Uma febre que começa após a dor abdominal e de início insidioso. Antes de perfurar, a apendicite aguda caracteriza-se por temperatura axilar entre os 37,5ºC e os 38,0ºC.
  4. Deterioração do estado geral. Uma criança prostrada, que segundo o ‘olhómetro’ dos pais, não está bem deve ser levada ao serviço de urgência, independentemente de qualquer outro sintoma.

João Moreira Pinto

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