O Mundo precisa de saber

De  facto, o Mundo precisa de saber. Este é o título do livro escrito pelo Gustavo Carona, um anestesista com quem já tive o prazer de trabalhar, há muitos anos. Sabia que tinha ido algumas vezes em missão com os Médicos Sem Fronteiras, mas não tinha noção que tinha estado tantos meses fora e em zonas de guerra tão perigosas: Congo, Paquistão Afeganistão, Síria e, por estes dias, no Burundi.

Neste livro, O Gustavo conta muitas das aventuras que tem vivido e mistura reflexões sobre a guerra, sobre o papel do ocidente nas complexas teias geo-políticas e sobre o papel de cada um de nós nestas crises humanitárias. Claro que as histórias que mais me apaixonaram foram as que metiam cirurgia pediátrica: o desafio de equilibrar e anestesiar um lactente com estenose hipertrófica do piloro no Congo, a emergência duma invaginação intestinal em plena guerra no Paquistão e recuperação lenta do pequeno Ahmed após um TCE grave na Sìria.

O Gustavo escreve duma forma crua e desconcertante. Eu peguei no livro e devorei-o numa semana. Teve uma coragem enorme de cada vez que saiu para estas missões tão arriscadas, mas também uma coragem gigante para expôr os seus sentimentos, as suas incertezas e as suas fragilidades neste livro. Eu agradeço-lhe essa coragem e agradeço-lhe oportunidade de viver com estas aventuras e de me colocar em perspectiva algumas ‘certezas’ que tinha sobre a política internacional.

Nas guerras, somos levados a rotular uns de bons e outros de maus. Na verdade, todos que semeiam terror, independentemente dos lado em que estão, independentemente da religião que professam, independente da pátria que defendem, independentemente perpetuam o Mal. O Gustavo escreve isto:

«Eu nunca deixo de ter uma mão firme na crítica, na condenação de todos os que perpetuam a maldade e desrespeitam os direitos humanos, mas depois de várias vezes dormir com o inimigo, todas as minhas reflexões me levam a acreditar que se dermos Amor e fizermos o Bem, de uma forma ou de outra, será isso que vamos receber, e a probabilidade de salvarmos o mundo é muito maior. / Que nunca deixemos que o ódio e o fundamentalismo sejam a resposta a quem não gosta de nós, porque aí seremos tão culpados quanto eles na destruição do nosso sentido de Humanidade.»

Que mensagem bonita para reflexão hoje, dia 10 de Dezembro, 70 anos após a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

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João Moreira Pinto

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