Orelhas em abano

Indignam-me perguntas indignadas do género «mas também fazem cirurgia estética em crianças?». Quem me vai lendo já percebeu que a maior parte do trabalho de um cirurgião pediátrico é tratar malformações congénitas ou adquiridas. Muitas delas deformam esteticamente a crianças, pelo que sim fazemos cirurgia estética. E, contextualizando a pergunta indignada anterior, não é capricho nenhum querer enrolar uma ou as duas orelhinhas que ficaram em ‘procidentes’ ou ’em taça’.

[fonte: disney.wikia.com]

O pavilhão auricular modifica-se muito nos primeiros anos de vida. Só pelos 5 ou 6 anos, a cartilagem terá uma consistência mais parecida com a de um adulto. Durante o crescimento é suposto a cartilagem enrolar e encostar ao crânio. Assim, mesmo a criança que nasça com as orelhas ‘descoladas’ (também chamadas orelhas, procidentes’, ’em abano’, ’em taça’) pode corrigi-las espontaneamente até à entrada na escola primária. A partir dessa idade a necessidade de cirurgia é uma hipótese que os pais devem colocar. Obviamente, esta decisão dependerá do grau da deformidade estética e do eventual impacto na vida da criança. As crianças podem ser bem cruéis entre elas (e desde muito cedo). É frequente os meninos (mais do que as meninas que conseguem disfarçar como o cabelo comprido) referirem que os outros colegas lhes chamam macaquinho, Dumbo, aviador, etc.  Nestas idades, a cirurgia (chamada otoplastia) terá que ser feita sob anestesia geral. Se o defeito for discreto (e não tiver impacto no bem-estar da criança) pode-se protelar a correcção para a adolescência, realizando o procedimento sob anestesia local.

[fonte: doctortaylor.com]

Que não seja por falta de conhecimento. Não faz sentido, nos dias de hoje, existirem crianças a sofrer uma infância  e uma adolescência inteiras por causa das orelhas. Trata-se de corrigir um defeito do desenvolvimento da cartilagem do pavilhão auricular. Não é capricho, nem vaidade.

João Moreira Pinto

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