Otite externa (ou de mergulhador)

A convidada especialista desta semana vem responder por mim a algumas perguntas que tenho recebido no e-mail, sobre otites e piscinas. A Dra Teresa Mesquita Guimarães é pediatra no Hospital da Arrábida. Trabalha também no Hospital de Santa Maria e na Clínica EME Saúde (tudo no Grande Porto). O texto está excelente. Pode vir um bocadinho tarde, uma vez que o Verão parece querer ir embora e leva com ele as tardes passadas na praia ou na piscina. Mas as aulas de natação vão recomeçar e é preciso prepararmo-nos para evitar as mal-fadadas infecções nos ouvidos.

Otite externa
Teresa Mesquita Guimarães

Se os dias quentes de Verão passados na praia ou na piscina com as crianças podem ser muito divertidos (e cansativos), ter de lidar com uma otite externa pode ser um balde de água fria. Muitas horas na água, a brincar, nadar e mergulhar (sempre sem descurar a vigilância atenta dos mais pequenos) podem favorecer o aparecimento de inflamações e infecções nos ouvidos, que não estão preparados para estes excessos aquáticos!

[fonte: ipo.com.br]


O que é?
Mas afinal o que é uma otite externa? A otite externa, também chamada de otite do nadador (swimmer’s ear), é uma inflamação do canal auditivo externo. O ouvido divide-se em três partes: externo, médio e interno. O ouvido externo é formado pelo pavilhão auricular (vulgo orelha) e pelo canal auditivo externo, que se inicia na entrada do ouvido e vai até à membrana timpânica (tímpano), e é revestido por pele e cerúmen (cera) que tem um papel protector importante.

Com o contacto frequente e continuado com água, a cera do ouvido é removida e a pele do canal auditivo fica vulnerável à proliferação de bactérias e fungos. Além da humidade excessiva, outros factores como a limpeza agressiva (por exemplo com cotonetes) ou traumatismo do canal auditivo (com um corpo estranho) e a pele seca ou eczema, que originam comichão podem contribuir para macerar a pele do canal e favorecer o aparecimento de infecção.

[fonte: disataster-medicine.blogspot.com]
 

Como se manifesta? 
Geralmente, a criança queixa-se de dor, desconforto ou comichão num dos ouvidos, embora por vezes possa afectar ambos os ouvidos. A dor pode ser intensa, e habitualmente agrava ao tocar ou mexer na orelha – o que permite distinguir da otite média. Pode ser notado rubor (vermelhidão) e edema (inchaço) do canal e ocasionalmente secreção proveniente do ouvido, sensação de bloqueio ou perda de audição. Não é habitual surgir febre. Se a criança apresentar temperatura alta ou dor intensa associada a inchaço ou vermelhidão em redor ou atrás da orelha, deverá procurar cuidados médicos com brevidade.
A otite externa não é contagiosa, portanto não há risco no contacto com outras crianças.

[fonte: dallasentgroup.com]


Como se trata?
O tratamento da otite externa inclui 3 atitudes:
– manter o ouvido seco: a criança deverá evitar nadar ou colocar a cabeça debaixo de água no banho, impedindo que a água se introduza directamente no ouvido enquanto a infecção não estiver resolvida; não é recomendado usar cotonetes para secar ou limpar o ouvido, já que podem causar lesão ou irritação na pele do canal ou  mesmo uma perfuração acidental do tímpano
– medicação para a dor: deve utilizar os analgésicos habituais paracetamol (Ben-u-ron) e ibuprofeno (Brufen/Nurofen/Ib-u-ron) em doses correctas para controlar a dor
– tratamento tópico: com gotas auriculares que contêm geralmente antibiótico e/ou corticosteróides (que têm acção anti-inflamatória), prescritas pelo médico.
Por vezes, nos casos mais graves, é necessário prescrever antibiótico oral
A infecção deverá começar a dissipar-se em dois ou três dias, ficando normalmente tratada em cerca de uma semana.

Como se previne?
Os cuidados para evitar ou reduzir o risco de otite externa consistem basicamente em manter o ouvido o mais seco possível.
– Utilize dispositivos próprios para evitar a entrada de água no ouvido: os vulgares tampões protectores, de material macio e preferencialmente moldável de modo a adaptar-se à anatomia do canal (ex. silicone). Existem também umas fitas de tecido ajustável tipo bandolete (Ear Band-It) que são bastante eficazes.

[fonte: funswimshop.co.uk]
 

– Seque bem os ouvidos após as actividades na água e/ou banho: utilize uma toalha para limpar o exterior do ouvido; incline a cabeça de lado e faça movimentos com orelha em diferentes direcções para ajudar a drenar a água retida no canal auditivo; considere utilizar o secador de cabelo, em potência mínima e a uma distância segura da orelha, para evaporar os resquícios de água.
Embora existam produtos otológicos (gotas auriculares adstringentes como a solução de Burow), que provocam a evaporação de água e acidificam o pH do canal, impedindo o crescimento de bactérias, estes não estão disponíveis em Portugal. Alternativamente poderá utilizar uma fórmula caseira que se obtém misturando partes iguais de álcool a 70% e vinagre (ácido acético).
– Nunca introduza cotonetes ou outros objectos no canal externo do ouvido: o cerúmen tem uma função protectora e não deve ser removido nem limpo de forma excessiva
– Consulte um médico se a criança apresentar dor ou saída de líquido do ouvido: uma observação simples com otoscópio permitirá um diagnóstico e tratamento correcto, evitando complicações.

João Moreira Pinto

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