Pilomatrixoma versus Malherbe

«Pilomatrixoma.» Por vezes saem da boca dos médicos, palavrões assim. Assustam os pais com um diagnóstico tão complicado. «Só pode ser grave», pensam. Mas não. Os tumores da criança são na sua maior parte benignos, principalmente os da pele (felizmente). O pilomatrixoma, também conhecido por quisto de Malherbe*, não foge a esta regra. Tratam-se de tumores calcificados, resultado de inclusões de células da pele nos planos mais profundos. Podem-se notar à nascença, mas o mais habitual é notarem-se já nos primeiros anos de vida. Um dia os pais passam a mão pela cabeça (ou pelo pescoço) e notam um ‘caroço’. (Talvez queira rever o texto ‘um caroço no pescoço’ que escrevi em Março).

O quisto de Malherbe é um tumor benigno e pode aparecer em todo o lado que exista pele. Não desaparece espontaneamente, mas a sua exérese cirúrgica confere cura definitiva. O seu nome deriva de A. Malherbe, o médico/patologista que descreveu este tipo de lesão benigna. Estes quistos nada têm a ver com as ‘rosas de Malherbe‘ – expressão usada para se referir às coisas efémeras. Estas rosas derivam de um poema trágico. Umas linhas que François de Malherbe (poeta francês do século XVII) dedicou a um amigo cuja filha morreu com apenas 5 anos*:

“(…) Mais elle était du monde où les plus belles choses
Ont le pire destin;
Et rose elle a vécu ce que vivent les roses,
L’espace dun matin.”
[Mas ela pertencia a um mundo em que as mais belas coisas
têm o pior destino;
e, rosa, ela viveu o que vivem as rosas,
O tempo de uma manhã.]

Pilomatrixoma é uma palavra que assusta. Mas entre este e Malherbe, venha o Diabo e escolha…

*Fonte: lugares comuns, da Antena 1 – um dos podcasts que me acompanham nas viagens Porto-Braga. Quem disse que não podemos enriquecer no trânsito?

João Moreira Pinto

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