Por falar em pistolas

Numa destas últimas urgências, uma mãe entra com a sua filha de 3 anos pela mão e mostra-me (a mão e a filha). Que teria batido com o dedo há 3 meses. Olhei duvidoso. Diagnóstico: polegar em gatilho. Ninguém gosta de atender no serviço de urgência casos com meses de evolução. Não são verdadeiras emergências e poderiam ser vistas na consulta regular.

O polegar em gatilho (ou em mola) resulta de uma tenosinuvite do flexor longo do polegar. Trocando por miúdos  trata-se uma inflamação da bainha que recobre o tendão responsável por puxar o dedo para baixo (flexão). Vai ficando espesso, prendendo o dedo como o gatilho de uma pistola. O diagnóstico é fácil só com o exame físico: a criança não consegue esticar o polegar e palpa-se uma bolinha dura na sua base. A grande maioria (se não a totalidade) dos polegares em mola são congénitos, isto é, nasceram com a criança apesar de serem notadas mais tarde, pelo primeiro ano de vida. Muitas vezes são notados pela primeira vez na sequência de um traumatismo. Assume-se que esteve sempre lá, mas tratando-se uma inflamação nada nos diz que não possa ter sido provocada pelo acidente. A verdade é que a mãe só notara hoje que a menina não esticava o polegar da mão esquerda. Assustada que resultasse de uma ‘cicatrização defeituosa do osso’ (sic), foi ao serviço de urgência. Compreensível.

[fonte: childrenshospital.org]

A solução desta patologia é cirúrgica e envolve a secção destas fibras espessadas, umas horas no hospital e penso almofadado durante uma semana. Felizmente, resolve-se sem sequelas.

João Moreira Pinto

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