Porque é que os recém-nascidos vão à urgência?

Este é o título dum artigo científico publicado por um grupo de pediatras do serviço de Pediatria de Guimarães na revista Pediatric Emergency Care. Bastaria o facto de colegas portugueses publicarem numa revista internacional com o renome da PEC para sugerir a sua visita. Mas a leitura atenta dos seus resultados, merece um texto maior aqui no blogue.

As pediatras do Hospital de Nossa Senhora de Oliveira (HNSO) analisaram os processos de todos os doentes nascidos neste hospital público e que nos primeiros 28 dias de vida recorreram ao seu serviço de urgência. O HNSO é um hospital secundário, isto é, na falta de algumas valências/especialidades, tem que enviar os doentes para um hospital terciário: no caso, Hospital de Braga ou Hospital de São João. Ainda assim, é um hospital com muita actividade clínica, nomeadamente no serviço de urgência (SU). No ano de 2014 (ano a que se reporta o estudo), foram admitidos 160987 doentes no SU, dos quais 37456 eram menos do que 18 anos. São mais de 100 entradas por dia, só na urgência pediátrica!!!

No ano de 2014, recorreram à urgência 378 recém-nascidos. Destes, 59% tinha menos 14 dias de vida e 78,9% não passaram pelo seu médico ou pediatra assistente antes. De facto, e apesar de os casos não serem exactamente os mesmos, 78,9% é também percentagem de doentes que tiveram alta após observação médica e sem necessidade de nenhum exame auxiliar de diagnóstico. Isto faz suspeitar que 1 em cada 4 destes recém-nascidos poderiam ter sido vistos e tratados fora do ambiente hospitalar.

Os sintomas mais comuns que levaram os pais a trazerem os filhos ao SU foram as queixas gastro-intestinais, alterações da pele e sintomas respiratórios. Segundo os autores, mais de metade eram sintomas normais do recém nascido, o que faz crer que muitas das visitas seriam evitáveis com uma melhor (in)formação dos cuidadores. Claro que o trabalho de investigação aprofunda mais exaustivamente esta questão. Analisa também as limitações da triagem de Manchester na identificação da gravidade dos problemas neonatais. De qualquer forma, este trabalho é de um valor enorme. Chama a atenção para que nós profissionais de saúde apostemos mais e melhor informação para os pais e para que nós pais procuremos activamente essa informação, nomeadamente junto do pediatra assistente ou do médico de família, antes de a procurarmos no serviço de urgência.

A propósito deste tema, há uns meses, sugeri um livro aos subscritores da newsletter escrito por umas colegas do serviço de Pediatria do Centro Hospitalar do Baixo Vouga e disponibilizado online. Chama-se ‘Cuidar no primeiro ano de vida’ tem tudo o que os pais precisam saber desde o vestuário aos cuidados com o umbigo. Inclui até muita informação que os médicos não conseguem encontrar em livros mais técnicos. Podem descarregar o pdf seguindo esta ligação.

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João Moreira Pinto

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