Porque não deve bater, insultar, nem humilhar o seu filho

A Academia Americana de Pediatria (AAP) emitiu um importante parecer sobre disciplina educativa (Effective Discipline to Raise Healthy Children), mas que é na verdade um condenação fundamentada da punição corporal e do assédio verbal das crianças. Infelizmente, a ideia de que uma-bem-dada-na-altura-certa-só-lhes-faz-bem ainda está muito enraizada na nossa cultura (mesmo entre a comunidade médica). Longe de mim querer dar lições de moral ou de parentalidade a alguém. Eu próprio chamo involuntariamente chato a um dos meus filhos mais vezes do que quereria. Ainda assim, como pai e cirurgião pediátrico, acho que devo chamar a atenção para este artigo. Algumas das nossas acções por mais bem intencionadas que sejam podem prejudicar o futuro das nossas crianças.

A AAP já há muitos anos que promove uma educação pela positiva em vez duma educação pela negativa, isto é, pela punição (seja verbal ou física). Este parecer foi agora actualizado com novas descobertas científicas que alertam para os perigos de algumas formas mais violentas de educar as crianças. Alerto, como sempre, que uma educação ou parentalidade positiva não é uma educação permissiva.

Pegando nos pontos que mais me chamaram a atenção, a AAP cita várias análises que mostram que estratégias como bater na criança, gritar ou humilhar podem ser eficazes no curto prazo mas são desastrosas no longo prazo. Ou seja, o berro assusta o suficiente para a criança deixar de fazer o que não queremos, chamá-lo chata ou gozar com ela à frente dos irmãos ou dos primos também, mas estaremos a semear uma tempestade de mau comportamento, insegurança emocional e maus desempenho cognitivo e psicossocial.

Talvez por ser tão eficaz no curto prazo, é tentador para os pais seguirem a via da violência (verbal ou física). No entanto, os estudos mais recentes permitem hoje documentar algumas consequências a médio e a longo prazo que nos devem fazer repensar estas estratégias. O castigo corporal está relacionado com mais acidentes físicos nas crianças, deteriora a relação pais-filho, aumenta a agressividade com os colegas na escola, desenvolve na criança atitudes desafiantes/insultuosas, diminui o desempenho escolar, e associa-se a uma série de de problemas na vida adulta: suicídio, violência doméstica, toxicodependência/alcoolismo.

Mas a própria violência verbal causa efeitos nefastos na criança. Comparando ressonâncias magnéticas, foram detectadas alterações na região cortical/cerebral pré-frontal e diminuição do QI em jovens adultos vítimas de abuso verbal parental (sem história de agressão física). Mais, os níveis de cortisol (‘hormona de stress’) detectadas na criança vítima de violência verbal e/ou de violência física dão sustentação bioquímica para as alterações psiquiátricas que se detectam mais tarde, na vida adulta.

Se pensarmos bem, os comportamentos agressivos geram respostas por parte da criança também agressivas. Nos mais pequenos, a cara de mau é um sinal disso. Nos maiorezinhos, pode haver ‘bocas’ ou mesmo agressão física aos pais. Violência gera violência. Cabe a nós, pais, educadores, profissionais de saúde, quebrar esta espiral. Afinal, não somos nós o adulto na sala?

Para ajudar os pais/educadores/profissionais de saúde a CDC (Centers for Disease Control and Prevention, EUA) colocou online uma série de informações relativas à parentalidade positiva. A própria AAP tem um conjunto de informações preciosas no seu website. Para quem não gosta/não consegue ler em inglês, não faltam alternativas portuguesas aí pela Internet. Pessoalmente, recomendo o blogue da Magda Gomes Dias e a sua Escola da Parentalidade. Se souber de outros websites sobre o tema, por favor, deixe nos comentários. Obrigado!

fonte: jamanetwork.com, onde podem ler uma entrevista com um dos autores do artigo.

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João Moreira Pinto

4 thoughts to “Porque não deve bater, insultar, nem humilhar o seu filho”

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