Rastreio oftalmológico e ambliopia – como, quando e porquê?

Mais um convidado especialista… e, como verão pela biografia, que especialista! A Dra. Sandra Guimarães é Oftalmologista Pediátrica, no Hospital de Braga, na Iberoftal-Clínicas Oftalmológicas e na Clínica Oftalmológica de Viana do Castelo. É mentora do Projecto Pimpolho, projecto de prevenção da ambliopia que teve início em maio de 2014 numa parceria entre a Câmara Municipal de Braga e o Hospital de Braga e que, em 2016, foi alargado a mais cinco concelhos: Amares, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Viera do Minho e Vila Verde. Está a fazer um doutoramento na área da ambliopia, tema que tantas dúvidas suscita nos pais: o meu filho troca os olhos, é normal? quando deve fazer um rastreio oftalmológico? quando devo levar o meu filho ao oftalmologista pela primeira vez? Estas e outras respostas no texto que se segue.

oft1 [fonte: solutions.3m.co.uk]

 

Ambliopia – Sabem o que é?

Sandra Guimarães

 

Quando um bebé nasce ainda não sabe ver. Existem alterações oftalmológicas, a maioria das quais não detectadas normalmente pelos pais, que não permitem que a criança aprenda a ver. Nenhum pai tem dúvidas que um bebé não sabe andar, não sabe falar e que essas competências irão ser adquiridas com a estimulação, mas apenas no “tempo cerebral adequado”. Quer isto dizer que normalmente não vemos uma mãe a colocar o seu bebé de 4 meses em pé para estimular a passada. A mãe sabe à partida que essa aprendizagem será para perto dos 12 meses. Nessa fase preocupa-se em estimular a posição sentada do seu filho. Todos conhecemos os famosos ditos dos nossos avós “ aos seis senta, aos sete adenta”, “ao ano andante aos dois falante”. E é-nos natural ver esse processo acontecer. Mas… e a visão? Como estimulamos? Quando estimulamos? “O meu filho já vê?” é a pergunta mais frequente que me chega das recém-mamãs.

 

Desde o primeiro dia de vida até que a criança seja plenamente capaz de ver há um longo percurso de maturação cerebral que necessita acontecer. Qualquer obstáculo (leia-se, alteração oftalmológica) que exista nesse caminho, irá com muita probabilidade impedir o normal desenvolvimento da visão.

 

E uma criança pode não aprender a ver? Claro que sim. Imaginemos uma comparação fácil de perceber. Uma criança que nasça surda, incapaz de ouvir, não recebe estimulo cerebral sobre os sons e não vai conseguir desenvolver a fala de forma natural. Essa criança não tem nenhum problema nas cordas vocais, mas a verdade é que não vai conseguir falar normalmente porque o seu cérebro não conhece os sons. Ora, com a visão passa-se exactamente o mesmo. Se o cérebro da criança não for estimulado a ver, não vai aprender. Esta doença chama-se AMBLIOPIA, é mais conhecida como olho preguiçoso, e é isso mesmo: uma visão não desenvolvida. É a criança que não aprendeu a ver.

 

A AMBLIOPIA é uma doença do neurodesenvolvimento. É a principal responsável pela maioria dos casos de baixa visão ou cegueira na criança. É uma doença da infância e apenas tratável nesta faixa etária. O sucesso do tratamento pode atingir quase 100%, dependendo da causa. Não sendo tratada na idade pediátrica, acarreta deficit visual, não passível de correcção para o resto da vida.

 

Mas então, quando começa essa aprendizagem? Desde o primeiro dia de vida.

 

Isso significa que devo levar o meu filho ao Oftalmologista Pediátrico logo após o nascimento? Claro que não. Fiquem tranquilos os pais! Nenhum bebé tem alta dum hospital/maternidade sem ser observado por um Pediatra. Nesse exame, o Pediatra descarta as alterações que necessitam de tratamento mais imediato, como por exemplo as cataratas congénitas.

 

O Pediatra sabe ver os olhos do meu bebé? Sim, sabe. Caso haja alterações o bebé é-nos prontamente encaminhado para, se for o caso, podermos programar uma cirurgia nas primeiras semanas de vida, por exemplo.

 

E depois, quando é necessário voltar a fazer um exame oftalmológico? O Pediatra/Médico de Família continuará a observar regularmente o seu filho. Se houver história familiar de problemas oftalmológicos relevantes, se o seu filho tiver algum tipo de doença sistémica ou factor de risco associado (por exemplo, se tiver nascido prematuro) ser-nos-á enviado precocemente, conforme os protocolos científicos existentes. Por outro lado, sempre que surjam alterações de novo, o Oftalmologista Pediátrico é chamado a observar a criança. Por volta dos 3-4 anos o Pediatra/Médico de Família fará um exame mais demorado, em que verá as acuidades visuais do seu filho. Caso não tenha os meios necessários, nessa fase, poderá referenciar para uma avaliação pela especialidade. Para além de todas as observações regulares que foram feitas até aí, esta é uma consulta muito importante. Por volta desta idade (3-4 anos) há que ter a certeza que a visão se está a desenvolver bem, porque até aos 5 anos ainda temos uma boa janela terapêutica para reverter ambliopias, altura a partir da qual o tratamento da ambliopia começa a ser menos eficaz.

 

A que devo estar atento? Há AMBLIOPIAS que dão sinais e a essas devemos estar atentos porque normalmente necessitam de um tratamento mais precoce. Se o seu filho começar com um estrabismo, “a trocar os olhos”, mesmo que seja de forma intermitente, deve consultar um Oftalmologista Pediátrico prontamente. Para além do estrabismo ser uma causa importante de ambliopia, pode também ser um sinal de algo mais grave. Por outro lado, se o seu filho se APROXIMA DA TV, TROPEÇA, parece que tem MEDO DE ANDAR, fale com o seu Pediatra/Médico de Família.

 

Infelizmente algumas crianças são amblíopes e assintomáticas. Não deixe passar os 4 anos sem que as acuidades visuais sejam avaliadas.  Felizmente a maioria das crianças são saudáveis. Em caso de dúvida, fale sempre com o seu Pediatra/Médico de Família.

 

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[fonte: childrenseyecenterorangecounty.com]

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João Moreira Pinto

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