Rotarix, RotaTeq ou nenhuma?

A Organização Mundial da Saúde emitiu um parecer (position paper) sobre as vacinas contra o rotavírus. Tem-me faltado o tempo e a vontade para o analisar com calma, mas a aproximação da eventual toma da vacina oral, tornou esta análise inadiável. O JM não fez esta vacina (que é extra-plano nacional de vacinação) e o MM irá pelo mesmo caminho. Mas porquê?

Algumas premissas importantes: virtualmente todas as crianças serão infectadas por um rotavirus até aos 3-5 anos. Nos países desenvolvidos, 65% das crianças terão a sua primeira gastroenterite por rotavírus durante o primeiro ano de vida. É um vírus de transmissão muito rápida. Ele destrói as vilosidades dos enterócitos (células que recobrem o intestino), provocando alterações nas fezes que podem ficar moles até diarreia severa. Geralmente, o quadro acompanha-se de febre e vómitos. Estes três sintomas (diarreia, febre e vómitos) contribuem para a desidratação da criança. Não existe forma de combater o rotavírus, pelo que resta impedir a desidratação com soluções de rehidratação oral (ver post sobre isso aqui). O quadro é auto-limitado e dura cerca de 3-5 dias (embora nalguns casos possa durar mais).

[fonte: trialx.com]

As vacinas contra o rotavírus são administradas oralmente e contêm estirpes deste vírus, vivo, (embora atenuado). São elas a Rotarix (administrada em 2 doses com intervalo de 4 semanas, primeira dose apartir das 6 semanas de vida) e a RotaTeq (administrada em 3 doses em intervalos de 4-10 semanas, primeira dose até às 12 semanas de vida). A eficácia destas vacinas é muito semelhante entre elas e varia entre 80 e 90%, nos países desenvolvidos. A eficácia não é tão grande nos países em desenvolvimento, mas evita muito mais mortes por desidratação (acontecimento que é muito raro nos países desenvolvidos).

Mas então qual é a dúvida em dar a vacina contra o rotavírus (ainda por cima oral) ? É que houve em tempos uma vacina (a RotaShield, entretanto retirada do mercado) que aumentava a probabilidade da criança ter uma invaginação intestinal (invagina-quê?). Quanto à RotaTeq e a Rotarix, alguns estudos mais recentes (mas não todos) detectaram um pequeno risco aumentado de invaginação nos primeiros 7 dias após a toma da primeira dose (1-2/100000 lactentes). É de facto um risco muito pequeno que, segundo a OMS, justifica-se correr pelas desidratações que evita. Mais, os internamentos por desidratação que evitam, fazem com que a administração a toda a população pediátrica possa ser cost effective.

Uma colega do Hospital de Braga, facultou-me uns dados interessantes recolhidos entre Abril de 2011 e Março de 2012. Eles mostram que das crianças que recorreram aos Serviços de Urgência dos quatro principais hospitais do Minho por gastroenterite, apenas 15,6% se deveram ao rotavírus. Isto responde à pergunta dos pais que, dando a vacina contra o rotavírus aos seus filhos, eles tenham gastroenterite na mesma. De facto, será quase inevitável que eles não venham a ter por outro vírus ou bactéria qualquer.

[fonte: livestrong.com]

Os dados mostraram outra coisa interessante. Apenas 12% das crianças com gastroenterite que recorreram ao SU  (rotavírus ou outras) necessitaram de internamento. A grande maioria das gastroenterites tratam-se em casa, com medidas de hidratação oral. Talvez muitas delas não tivessem sequer necessidade de recorrer ao SU. Isto mostra que efectivamente a gastroenterite, seja por rotavírus ou outro vírus, é uma situação benigna e de fácil resolução. Valerá a pena correr o risco (ainda que pequeno) de uma eventual invaginação? Cá em casa, voltámos a fazer as contas aos riscos e aos benefícios e decidimos não dar.

É uma decisão difícil para os pais e que deverá ser discutida com o pediatra ou o médico assistente, porque «cada caso é um caso». É preciso contextualizar: o bebé tem ou não doenças associadas que o tornam mais susceptível a infecções ou mais frágil a combatê-las? vai ou não frequentar o berçário? tem ou não irmãos em idade escolar? tem história pessoal de imunodeficiência grave ou invaginação intestinal que contra-indique a toma da vacina? E os pais: saberão tratar uma gastroenterite em casa ou vão a correr para o hospital? têm ou não dinheiro para a vacina? As duas doses da Rotarix ficam por €148,56 e as três doses da RotaTeq ficam por €159,12 (PVP do prontuário terapêutico). Nos tempos que vivemos, isto também pesa na balança.

João Moreira Pinto

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