Tem pintinhas… Será Varicela?

O convidado especialista desta semana vem-nos falar de um problema que, embora seja muito comum e antigo, ainda é alvo de muitas dúvidas e de algumas controvérsias. A Dra. Joana Macedo é uma pediatra a todo o gás e isso reflecte-se na quantidade de sítios em que trabalha – Hospital Guimarães (Público), AMI- Hospital Privado de Guimaraes, Hospital Santa Casa Misericórdia de Vila Verde, Clinica Ortocelos (Barcelos) e no seu consultório particular (também em Barcelos). Com tudo isto a Joana ainda teve tempo para casar e (palavras suas) «com projecto para filhos brevemente». Portanto, varicela: é importante vacinar? deve-se fazer algum tratamento específico ou só esperar que passe? deve-se proteger ou tentar infectar os irmãos? Vamos a isso…

Tem pintinhas… Será Varicela?
Joana Macedo

A varicela é mais uma doença infecciosa da infância, muito contagiosa, causada por um vírus, o Vírus Varicela Zoster (VZV), da família Herpesvírus. Atinge sobretudo crianças até aos 10 anos e ocorre geralmente por surtos, no fim do inverno ou início da primavera.

Fase de contágio
O período de incubação do vírus, isto é, o tempo entre o contacto com a pessoa infetada e o aparecimento da doença, pode ir de 10 a 21 dias. A transmissão ocorre por contacto direto com as lesões cutâneas ou através do ar contaminado com secreções respiratórias (espirros, tosse, gotículas de saliva) de indivíduos infetados, daí que o risco seja maior em ambientes fechados (creches, salas de aula, salas de espera de consultórios). O aparecimento de um caso numa família implica geralmente o contágio de todos os membros que nunca tiveram a doença, porque as crianças com varicela começam a eliminar o vírus nas gotículas respiratórias cerca de 2 dias antes de iniciarem as manifestações da doença, pelo que quando surgem as manchas na pele, muito provavelmente já contagiaram outras pessoas.

A verdade é que, tratando-se de crianças saudáveis, o melhor será mesmo permitir o contágio. Regra geral, é sempre preferível que tenham a doença na infância, não correndo o risco de contrair a doença na adolescência ou idade adulta, altura em que as complicações são mais frequentes e mais graves.

Sintomas
A febre baixa, a tosse, a dor de cabeça, dor de garganta, dor de barriga, cansaço e diminuição do apetite são frequentes. Cerca de dois dias depois aparecem pequenas manchas vermelhas, primeiro na face e couro cabeludo, que podem espalhar-se para o resto do corpo e afectar boca, agravando a dificuldade em comer. Provocam muita comichão e transformam-se em horas em vesículas (bolhinhas com líquido). Estas bolhas vão-se rompendo e secando, formando crostas em alguns dias (1-3 dias), podendo surgir novas lesões até 5 dias.

Tratamento
O tratamento serve essencialmente para alívio sintomático e compreende um anti-histamínico (para retirar a comichão) e paracetamol para a febre, com a atenção especial de nunca dar ácido acetilsalicílico ou derivados (como Aspirina®, Aspegic®). A sua utilização em crianças com varicela, pode conduzir ao desenvolvimento de uma reação grave – a síndrome de Reye.

Para a pele não aplique pomadas, produtos com iodo ou talco. Deve reforçar os cuidados de higiene diários, com especial atenção para o corte das unhas (evitar lesões de coceira), banhos de água morna com óleos emolientes ou com aplicação de creme hidratante. Para os casos mais exuberantes, pode ser usado um spray desinfectante desde início para evitar lesões infectadas.

Quanto ao uso de aciclovir (antivírico para herpes) as opiniões divergem, e o melhor é seguir indicações do Pediatra assistente. Pessoalmente sigo as recomendações da Academia Americana de Pediatria, que recomenda o tratamento com aciclovir nas primeiras 24 a 48 horas de clínica, nos seguintes casos:

  1. adolescentes;
  2. segundos casos na família (porque geralmente têm manifestações mais graves);
  3. crianças com doenças cardiopulmonares ou cutâneas crónicas;
  4. crianças a fazer tratamentos prolongados com cortisona (ou derivados), mesmo que sob a forma inalada;
  5. crianças a fazer tratamento crónico com ácido acetilsalicílico;
  6. crianças com menos de 1 ano de idade.

Complicações
A varicela é na maioria dos casos uma doença benigna, que se auto resolve. Pode haver no entanto complicações, que são mais frequentes em crianças com defesas imunitárias diminuídas, adolescentes e adultos jovens, e podem estar associadas a sobre-infecção bacteriana da pele ou então a lesão directa pelo próprio vírus, com infecção do cérebro ou pneumonia.

No curso da doença, deverá por isso estar atento aos principais sinais de alarme: febre muito elevada ou prolongada (mais de 7 dias), vómitos persistentes, prostração ou sonolência (não confundir com a sonolência causada por alguns anti-histamínicos), desorientação, alterações da marcha, discurso incoerente, alterações visuais e dificuldade respiratória.

Vacinação
Em Portugal a vacina da varicela não está incluída no Plano Nacional de Vacinação (PNV), mas está autorizada pelo INFARMED e disponível para prescrição médica. Pode ser administrada em crianças com idade compreendida entre os 12 meses e os 12 anos (2 doses intervaladas mínimo 12 semanas) e a partir dos 13 anos (duas doses com intervalo de 4-8 semanas).

Neste momento a Sociedade Portuguesa de Pediatria partilha as orientações da Organização Mundial de Saúde, que recomenda que a vacina seja administrada em:

  1. Adolescentes (11-13 anos)
  2. Grupos de risco de adultos susceptíveis, que não tiveram doença (Trabalhadores de saúde, professores, trabalhadores de creches e infantários; Mulheres antes da gravidez; Pais de crianças jovens; Adultos ou crianças que contactam habitualmente com doentes imunodeprimidos).

João Moreira Pinto

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