Tiques – O que saber!

A convidada especialista desta semana é pedopsiquiatra e mãe (uma menina «linda, de 10 meses»). A Dra. Lia Moreira tem-se dedicado à neuropsiquiatria (áreas como autismo, doenças orgânicas com sintomas psiquiátricos, etc.). Quem melhor para nos vir falar de uma situação tão comum mas que levanta tantas dúvidas? Os tiques são voluntários? São sinal de doença grave? Vão passar sozinhos? O que podemos fazer para combatê-los? A Dra. Lia responde a estas e a muitas outras perguntas, num texto que está excelente. A Dra. Lia Moreira trabalha no Hospital Padre Américo (Penafiel) e na Clínica do Capitólio (Porto).

Tiques – O que saber!
Lia Moreira

Desafiaram-me para falar sobre tiques, um quadro clínico relativamente frequente e na sua maioria com sintomas ligeiros. Um tique é um movimento súbito, repetitivo, rápido e involuntário, que usualmente mimetiza um comportamento normal. Os tiques surgem frequentemente por impulsos com intervalos livres de sintomas entre eles. Podem ser simples ou encadeados numa sequência orquestrada. Há tiques motores simples, como piscar os olhos e complexos, como expressões faciais ou gestos com os braços ou a cabeça, aparentando movimentos voluntários. Os tiques vocais podem ser simples, como limpar a garganta a complexos, como sons ou palavras.

Por volta dos 10 anos de idade as crianças com tiques já conseguem ter a perceção de uma urgência premonitória que antecede o tique, isto é, uma sensação numa determinada região do corpo onde o tique vai ocorrer. A maioria dos jovens descreve também uma sensação de alívio após tique. Estas características contribuem para que algumas crianças sintam que os tiques são voluntários e na verdade até conseguem ser suprimidos por curtos intervalos de tempo, mas na realidade, acabam por acontecer mesmo contra a sua vontade.

As perturbações de tiques podem ser transitórias ou crónicas se duram menos ou mais de 1 ano, respetivamente e são 5 a 12 vezes mais frequente em crianças de que em adultos. Sao também mais frequentes nos rapazes do que nas raparigas, cerca de 2:1. Estão frequentemente associados a outros problemas comportamentais como impulsividade, agitação, desantenção e sintomas obsessivos-compulsivos. Devem ser sinal de preocupação quando provocam um mal-estar significativo na criança e/ou na família, prejuízo escolar ou social.

Os tiques iniciam-se geralmente entre os 3 e os 10 anos, com um curso intermitente, isto é, com fases de agravamento e fases sem sintomas e graus variáveis de gravidade e intensidade. Tipicamente tendem a agravar em períodos de maior ansiedade ou preocupação. O Síndrome de Gilles la Tourette é a forma mais grave de perturbação de tiques e combina tiques motores múltiplos e tiques vocais.

Actualmente pensa-se que as perturbações de tiques são resultado da disfunção de determinadas áreas cerebrais, os circuitos fronto-estriados e os familiares de primeiro graus de pessoas com tiques têm maior risco de desenvolver também a doença. Os tiques tendem a melhorar no final da adolescência e início da idade adulta.

[fonte: doutordecriancas.com]

O diagnóstico é clínico, baseado na história natural da doença, observação dos comportamentos e história familiar. Não são aconselhados quaisquer exames analíticos ou de imagem.

A intervenção deve ser global e envolver a família e a escola. Para o tratamento há apenas uma única regra de ouro: nunca criticar, nunca humilhar, nunca castigar, nunca culpar. Estes comportamentos só aumentam o stress na criança e consequentemente aumentam os tiques, baixa a auto-estima e podem conduzir a sintomas depressivos.

Se os sintomas são intensos e provocam significativo mal-estar é importante proteger a criança e evitar que se exponha a situações socialmente humilhantes, como por exemplo, ser gozada pelos colegas na escola. Educar os professores e os colegas para promover um ambiente securizante e protetor é fundamental para o progresso da criança. A criança pode também aprender a fazer relaxamento, ajudando assim a controlar a ansieade e portanto a diminuir os tiques.

Em situações de grande sofrimento para a criança pela intensidade dos tiques pode ser útil a utilização de psicofármacos por períodos breves de tempo. Os fármacos não curam o problema mas aliviam temporariamente os sintomas.

João Moreira Pinto

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *