Traumatismo dento-alveolar (I)

O convidado especialista desta semana é o Dr. André Santos Luís. O André é meu amigo desde os seus 10 anos (que, por coincidência eram os meus 10 anos também). Fizemos o ensino secundário juntos. Quando ingressámos em Medicina, ele seguiu para o Hospital de São João e eu para o Hospital de Santo António. Mantivemos o contacto e a amizade, porque ambos fazíamos parte das respectivas associações de estudantes. O André fez-se estomatologista. Trabalha na unidade de Cirurgia Maxilo-Facial do Serviço de Cirurgia Maxilo-Facial e Estomatologia do Centro Hospitalar do Porto. Exerce actividade privada no Hospital Privado de Braga. É pai do M., 6 meses.

Traumatismo dento-alveolar
André Santos Luís

Os traumatismos dento-alveolares (ou seja dos dentes e da sua estrutura de suporte, os alveolos dentários) são bastante comuns nas idades pediátricas. A sua etiologia é variada, sendo a mais comum, nas idades mais jovens, a queda, seguida pelos acidentes desportivos na adolescência, passando mais tarde pelas agressões e acidentes de viação.

Estes traumatismos assumem graus de gravidade diferentes consoante se limitem a pequenos impactos nos dentes dos quais resulta apenas dor (embora possam ter outras complicações no futuro,  às quais me referirei mais adiante) ou estarem integrados em traumatismos faciais complexos que inspiram outro tipo de cuidados e abordagens diferentes.

O propósito deste artigo prende-se com a abordagem a ter nos casos de traumatismos dentários ou alveolo-dentários isolados. Pretende-se aqui explicar um conjunto de atitudes que quem está a acompanhar a criança pode ter e que podem marcar efectivamente a diferença no prognóstico, bem como algumas das atitudes que vão ver no profissional de saúde e que muitas vezes intrigam os pais.

[fonte: carinhoacadapasso.com.br]

O cenário mais frequente: houve uma queda com um impacto na face, normalmente os incisivos superiores são as vítimas (são os que estão mais à frente…). A criança chora, os pais às vezes também, há sangue envolvido…e agora?

  1. Antes de mais (e tendo a noção como pai que às vezes não é fácil) tentar manter a calma e perceber se a criança respira bem, se o sangue e a saliva a atrapalham.
  2. Tentar ajudar a criança traquilizando-a e limpando o sangue. A maior parte das hemorragias são auto-limitadas ao fim de algum tempo, se necessário (e possível)  aplicar alguma compressão. Vamos assumir que o traumatismo foi só nos dentes/alveolos, sem feridas nos lábios ou face, sem impacto no mento (que nos chama a atenção para possíveis traumatismos dos côndilos das articulações temporo-mandibulares) ou outras regiões da face. 
  3. Ver se falta algum dente. Se faltar algum dente há que o procurar. Caso não o encontre não se preocupe em demasia com isso. O clínico deverá apenas excluir intrusão dentária (ver à frente) ou que a criança o tenha aspirado (com Rx torax) . 
  4. Se encontrar o dente (ou parte dele)  leve-o consigo dentro de leite frio, a menos que tenha um meio de transporte de dentes (leite frio é uma solução de compromisso aceitável), mas tenha presente que só uma parte significativamente pequena tem indicação para poder ser usada.

Põe-se agora a questão: onde recorrer? A minha opinião é que nos casos de trauma dentário exclusivo, sem feridas complexas, poderá dirigir-se ao Médico Dentista. Nos casos de traumatismos mais complexos, com envolvimento de vários dentes e feridas mais complexas, avulsões dentárias com dentes que não foram encontrados, deverá dirigir-se directamente ao Serviço de Urgência de um hospital. Se necessário será encaminhado para um com apoio de Estomatologia e /ou Cirurgia Maxilo-Facial.

João Moreira Pinto

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