Traumatismo dento-alveolar (II)

Traumatismo dento-alveolar (continuação)
André Santos Luís

Sendo agora mais sistemático. A abordagem vai ser diferente consoante o traumatismo ocorra em dentes de leite (decíduos) ou definitivos.

Nos dentes decíduos:
1. Se o dente não tem mobilidade, se não há fracturas visiveis, os cuidados a ter são de protecção (dieta mole p.ex.) e vigilância de complicações.
2. Se há fractura do dente, mas sem mobilidade,dependendo das estruturas do dente que foram afectadas, proceder-se-à à restauração do dente com ou sem pulpotomia (remoção de parte da polpa dentária) ou à extracção do dente (caso a restauração não seja possível).
3. Extrusões e luxaçãoes laterais: dependendo do seu grau, da maturação do dente, da cooperação da criança, etc, o tratamento pode ir desde a vigilância ou reposicionamento do dente (redução), até à extracção dentária.
4. Se houver luxação intrusiva, para posição que não sugira lesão do dente definitivo (esta sugestão varia com as escolas, desde a dimensão de coroa visível até critérios de imagem) aguarda-se e vigia-se, caso contrário procede-se a extracção.
5. Nos casos de avulsão (saída completa do dente) não se volta a re-implantar.
6. Fracturas alveolares –  fixação: há quem faça com compósito (o material de restauração dos dentes), com fio de aço e compósito ou com uns arcos metálicos que se chamam de “Erich”.

Nos dentes definitivos:
1. Se houver apenas impacto, sem fractura nem mobilidade – vigilância de complicaçõs e medidas de protecção.
2. Extrusão: reposicionamento do dente e fixação (2 semanas). Vigilância de complicações e medidas de protecção. Em casos  limite poderá ser necessário extraír o dente.
3. Luxação lateral: Redução e imobilização por 4 semanas. Medidas de protecção e vigilância.
4. Intrusão: Dependendo de vários factores, nomeadamente o grau de intrusão e o grau de maturação da raiz do dente, o tratamento poderá ir desde a vigilância até à necessidade de extracção do dente. Consoante os casos poderá ser ponderada a tracção ortodôntica (com aparelho).
5. Avulsão: Este é o ponto de menor acordo, principalmente pela viabilidade que alguns autores defendem que o dente terá em relação ao tempo que esteve fora do alveolo dentário. Alguns defendem que ao fim de 5 minutos a viabilidade a longo prazo é nula. É comumente aceite a re-implantação até uma hora após a avulsão, em dentes transportados em meio adequado (entenda-se que o mínimo aqui é o leite frio). O sucesso depende de vários factores como o tempo fora de meio adequado, do estado de maturação da raiz, do surgimento de complicações, nomeadamente reabsorções radiculares e infecção . Se necessário procede-se a tratamento endodontico.
6. Nas fracturas, caso não haja envolvimento da polpa, se possivel, procede-se a restauração, havendo lugar a outras técnicas se houver envolvimento também da raiz. Se houver envolvimento da polpa, o tratamento será diferente de acordo com o grau de maturação da raiz. O tratamento de alguns casos de fracturas pode passar por endodontia ou até por extracção do dente.
7. Nos casos de fractura apenas da raiz, dependendo do local de fractura, faz-se fixação durante, pelo menos, 4 semanas, sendo este também o período de fixação para as fracturas alveolares.

Apesar de tudo isto, cada caso é um caso, e a atitude mais indicada será ajustada pelo profissional de saúde responsável, sendo certo que por vezes é preferível extrair um (ou vários) dentes do que esperar por complicações que se prevêm mais graves.

A vigilância do aparecimento de complicações,  deve ser feita pelos pais ou pelo dentista assistente. Nos casos em que se justifique, essa vigilância será feita em ambiente hospitalar. Os sinais mais frequentes dessas complicações e  que devem colocar os pais em alerta são o escurecimento do dente, a formação de abcessos no dente com ou sem a formação de fístulas (pequenas bolas vermelhas na gengiva acima do dente), normalmente associados a necrose (morte) do dente e/ou a reabsorção da(s) raiz(es).  Com frequência será associado analgésico e antibiótico.

O objectivo final do tratamento de um traumatismo dentário é manter o dente em função e esteticamente agradável. O facto de se ter que fazer uma extracção dentária numa criança, principalmente de um dente definitivo, e às vezes anterior, é sede de ansiedade para os pais , para a criança e também para o profissional. O foco deve ser o de que uma extracção é sempre o último recurso para evitar complicações mais graves e que na maior parte dos casos será possível a obtenção de uma solução estética e funcionalmente boa.

João Moreira Pinto

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