Um aperto no estômago

Ontem não vim cá, porque andei às voltas e voltas para operar dois recém-nascidos. Apesar de ser relativamente rara (1-4 em 1000 nascimentos), os dois tinham a mesma patologia: estenose hipertrófica do piloro. Estenose quê?

A estenose hipertrófica do piloro é uma doença causada pelo aumento (hipertrofia) do músculo que controla a passagem do contéudo do estômago para o duodeno (que é a primeira porção do intestino). Esta passagem chama-se piloro e, quando o músculo hipertrofia descontroladamente, fica apertado (estenose) de tal forma que impede a passagem dos alimentos. Consequência? O bebé vomita tudo o que ingere, porque pura e simplesmente o leite não passa do estômago. Numa fase inicial, pode parecer apenas que a criança regurgita (o comum, bolsar), mas em horas ou dias o vómito passa a ser abundante e literalmente em jacto (projectado para a frente).

[fonte: empowher.com]

Obviamente, esta é uma situação que preocupa os pais, fazendo com que procurem rapidamente o médico. Actualmente, o acesso facilitado à ecografia permite o diagnóstico precoce desta doença. Se a ecografia mostrar um piloro com um comprimento maior ou igual a 16 mm e uma parede muscular maior ou igual 4 mm, o diagnóstico de estenose hipertrófica do piloro está feito. Por vezes, como aconteceu nos últimos dias, temos que repetir várias vezes a ecografia, à espera que o piloro antinja estas medidas, de forma a termos um diagnóstico seguro. Em ambos os bebés, vimos o músculo a espessar desde o dia anterior. Em ambos os bebés tivemos que intervir cirurgicamente, pois esta é a única solução para esta doença.

A estenose hipertrófica do piloro aparece entre as 2 e as 8 semanas de vida e a sua causa é desconhecida. Sabemos que é mais frequente em rapazes e no primeiro filho, mas não sabemos porquê. A operação consiste na secção daquelas fibras musculares que estão a impedir o piloro de abrir, o que pode ser feito por via aberta (clássica) ou por laparoscopia (comunmente chamada de ‘furinhos’). Apesar de haver ainda algum debate sobre qual a melhor técnica, duas importantes revisões científicas parecem favorecer a abordagem laparoscópica (ver Journal of Pediatric Surgery e Surgical Endoscopy). Foi o que fizemos ontem.

João Moreira Pinto

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