Um caroço no pescoço

Mais um pouco de embriologia. Sabiam que a glândua tiróide nasce na base da língua? Pois é verdade. É durante as primeiras semanas da vida embrionária que ela vai descendo até à sua posição final , que é logo abaixo da cartilagem cricóide (a maçã de Adão). Por vezes, o trajecto por onde ela desce não fecha completamente, o que justifica o aparecimento de um quisto entre a cartilagem cricóide e o soalho da boca. Este quisto é notado pelos pais como um ‘caroço no pescoço’. O seu nome técnico é quisto do canal tireoglosso. É um dos muitos quistos congénitos (isto é, que nasce com o próprio) que podem aparecer na criança.

[fonte: drtbalu.com]

Esta comunicação com a base da língua, faz com que estes quistos possam infectar, aumentando o seu tamanho, ficando ruborizado e podendo até drenar, isto é, deitar pús, através da pele. Não é uma imagem bonita. A solução é cirúrgica e o resultado final quase imperceptível. O cirurgião pediátrico deverá fazer uma incisão sobre uma das pregas do pescoço, de modo a cicatriz ficar sem tensão e invisível a quem olhe de frente para a criança. Depois, deve proceder à retirada do quisto e do trajecto até ao soalho da língua, incluindo o corpo do osso hióide.

[fonte: primehealthchannel.com]

Os diagnósticos diferenciais dos ‘caroços no pescoço’ são infindáveis. Se for mediano, isto é, na linha que separa o pescoço em duas partes iguais (direita e esquerda), peça à criança para deitar a língua de fora. O ‘caroço’ subiu? Então o mais provável é ser um quisto tireoglosso. O ‘caroço’ não subiu? Então o mais provável é ser um quisto dermóide, um tumor beningno constituído por inclusões de células da pele. A sua excisão é ainda mais simples, porque este quisto é bastante superficial.

A nós pais preocupa-nos muito a hipótese de ser ‘coisa ruim’, ou seja, tumores malignos. Felizmente eles são muito raros na crianças (exepto se a estas forem portadoras de alguma doença familiar que propicie o aparecimento de tumores malignos). Assim, quais os sinais de alarme para ‘caroços no pescoço’ (e também na face) que possam ser malignos?

  • os que são aderentes, sejam à pele, sejam aos tecidos profundos;
  • os que são muito duros (consistência pétrea);
  • os que não nasceram com a criança;
  • os que não variam de tamanho, isto é, aumentam (geralmente lentamente) mas não diminuem;
Não quer dizer que, aparecendo um ou mais destes 4 sinais de alarme, os pais se devam preocupar. Repito, os tumores malignos na criança são muito raros, principalmente no pescoço. Se já existia à nascença é provável que não seja maligno, mas sim um dos muitos quistos congénitos cervicais. Falarei dos outros que faltam um dia (prometo). Se apareceu de novo e é móvel (desliza por baixo dos dedos), tem consistência mole ou elástica e parece haver alturas que parece mais pequeno, podem dormir descansados, enquanto espera pela consulta. A probabilidade de ser benigno é muito provável e pode até não precisar de cirurgia.

João Moreira Pinto

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