Um em cada 5 adolescentes tem varicocelo. Como?

Há dias, fui arguir uma tese de mestrado na Universidade do Minho com o título «O impacto da injeção de azul de metileno na morbilidade do tratamento cirúrgico do varicocelo em Pediatria». O título pode não ser muito esclarecedor mas é duma importância extrema. O varicocelo é mais frequente do que os pais imaginam. Estima-se que 14-20% dos adolescentes tenham varicocelo (incidência que é semelhante à da população adulta). Isto é, são 1 em cada 5 rapazes com veias dilatadas no escroto, mas, como tudo o que diz respeito aos órgãos genitais, em especial na adolescência, vive escondido e/ou é tabu.

Mas vamos por partes. O que é o varicocelo? A analogia que a maioria dos pais percebe é a de que se trata duma variz que aparece nas veias dos testículos, pois o varicocelo apresenta-se como umas veias dilatadas na raíz do escroto. Tal como nas varizes das pernas, estas veias dilatadas devem-se ao ‘refluxo’ do sangue venoso para trás. Nos casos mais graves, as veias são tão dilatadas que parecem um cacho de uvas (ou saco de vermes, para uma tradução literal duma imagem usada pelos ingleses). Nos casos mais ligeiros, as veias dilatadas aparecem só após um esforço físico (como a contração abdominal ou manobra de Valsalva). Logo, temos vários graus de varicocelos, conforme a tabela abaixo, e nem todos são para operar.

O varicocelo aparece quase sempre no testículo esquerdo, porque a veia espermática esquerda insere-se na veia renal esquerda quase na perpendicular, podendo, por isso, ‘refluir’ mais facilmente. Sabe-se hoje que o varicocelo provoca alterações estruturais no testículo e que pode ser causa de infertilidade.

Os consensos da ESPU (sociedade europeia de urologia pediátrica) apontam para que os varicocelos que causem dor/desconforto, que afetem os dois lados ou que provoquem uma diminuição do testículo afetado devem ser tratados, assim que o diagnóstico é confirmado. Pode e deve fazer-se uma ecografia escrotal, caso hajam dúvidas. A maioria dos autores defendem a cirurgia nos varicocelos de grau III, mesmo que assintomáticos.

Nos últimos anos o tratamento do varicocelo tem beneficiado da cirurgia minimamente invasiva e dos seus avanços. Com o aumento das capacidades técnicas dos cirurgiões pediátricos e dos equipamentos disponíveis para os mesmo, hoje a correção cirúrgica do varicocelo pode ser mais eficaz e com menos mobilidade para o doente. É aqui que entra o tal ‘azul de metileno’, que é um corante que marca os canais linfáticos. Antigamente, por laparoscopia, laqueávamos (‘fechávamos’) todo cordão espermático com os canais linfáticos incluídos. Isso fazia com que 15 a 30% dos doentes desenvolvessem hidrocelo, nos meses seguintes à cirurgia, por acumulação líquido linfático no escroto. Muitos destes doentes precisavam de fazer uma segunda cirurgia para corrigir este hidrocelo. (Ainda como interno de cirurgia publiquei um artigo sobre isso).

Esta é uma fotografia tirada numa das nossas cirurgias. Vêm-se bem os vasos linfáticos marcados e percebe-se quão pequenos são em comparação com as pinças com que trabalhamos.

Hoje em dia, com uma dissecção mais cuidada do cordão espermático e poupando alguns dos linfáticos (marcados de azul), conseguimos descer a percentagem de hidrocelos a zero. É a chamada varicocelectomia laparoscópica poupadora de linfáticos (em inglês, lymphatic-sparing laparoscopic varicocelectomy). Percebe-se assim melhor o impacto que tem o uso do azul de metileno durante a cirurgia e quantos adolescentes têm beneficiado dum tratamento ainda menos invasivo do seu varicocelo.

Nota final: Existem outros métodos para correção do varicocelo, nomeadamente por radiologia de intervenção (embolização) e por microcirurgia aberta. Não os abordo aqui, por achar que são inferiores à cirurgia laparoscópica poupadora dos linfáticos, embora este é ainda um tema em debate na comunidade médica.

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João Moreira Pinto

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