Uma opinião sobre Educação

O Convidado Especialista desta semana apresenta-se como “marido, pai de 3, irmão de 6, tio de 15, pediatra”. O Dr. José Sizenando Cunha é um velho amigo e aceitou o desafio de escrever um texto livre para este blogue. Surpreendeu-me com esta bela opinião sobre a Educação (assim com letra maíscula). O Dr. Sizenando (é por este nome que é conhecido) trabalha no Instituto CUF e no Hospital da Arrábida. Não escreve em blogues, mas é muito activo no facebook, onde partilha pensamentos e artigos. A sua timeline é pública, pelo que podem e devem seguí-la.

Uma opinião sobre Educação
José Sizenando Cunha

As principais causas de mortalidade infantil preveníveis são os acidentes (dos quais os rodoviários são uma fatia importante) e os suicídios (4,5 mortes/ ano /100 000 crianças dos 10-19 anos, nos EUA). E estes são certamente a ponta de um iceberg de desilusão, em que drogas e outras fugas estarão incluídas.

Parece brutal iniciar assim uma crónica mas, objectivamente, o que queremos para os nossos filhos é que SEJAM felizes! E parece óbvio que isso implica uma boa saúde e estrutura mental. Porque SER feliz não é TER casa, cama e roupa lavada, nem sequer é obrigatório ser fisicamente saudável ou ter comida na mesa. Vi em Moçambique crianças extremamente felizes TENDO muito pouco. Será que ser feliz é estar em equilíbrio com o meio envolvente?

No boletim de saúde infantil, na consulta dos 12 meses, diz: aprendizagem de regras sociais. Porque a nossa liberdade acaba quando começa a dos outros, e as experiências de crianças com liberdade total não têm tido finais felizes. Entre o autoritarismo e a permissividade há um meiotermo que temos de descobrir e adequar à nossa família, à nossa cultura e à personalidade (congénita) da criança. Para chegar ao equilíbrio uma ferramenta que temos é a Educação.

Os filhos do Dr. Sizenando: M., P.e J. (6, 0 e 4 anos).

Gosto de pensar na Educação como um caminho que queremos que o nosso filho percorra. Se não houver balizas, limites, como é que ele sabe por onde ir? Se definirmos esses limites como muros, podemos escolher se o caminho é mais estreito ou mais largo. Se for muito estreito, só aprenderam uma direcção a seguir, quando saírem dos nossos muros; se for largo, fica muito incerto o caminho que escolhem em adultos.

Podemos escolher se esses limites são de pedra ou aço ou bambu, esponja ou mesmo daqueles plásticos com bolhinhas. Porque vai haver choques /birras. E o modo como aprendem a comportarse nesses confrontos ajuda a criar resiliência. Podemos definir a altura desses limites e as brechas, as vezes que se foge à regra. Depois, temos de desenhar, nesses muros, portas, cancelas e janelas (de música, de arte, de desporto, de religião, de escolaridade), em número e tamanho que achemos adequados, a aparecerem no caminho com regularidade, com maior ou menor dificuldade de abertura. E decorar esse caminho de amor, carinho, com setas a apontar a direcção que julgamos correcta, com metas intercalares, prémios de montanha (afectivos), empurrões nas subidas mais difíceis, travões nas descidas mais íngremes. Mas ensinar o valor do esforço, estimular a confiança nas suas capacidades.

E esse caminho, esse chão, é feito de quê? Areia, grama fofinha? Terra batida? Auto-estrada com via verde? Para mim, o chão é a família, que apoia e ampara, nmas também com pedras e obstáculos a superar. Para chegar aos 18 anos e saber para onde ir, e como lá chegar, com que companhia.

Confusos? Eu também ainda um pouco, mas é só uma opinião.

P.S. “Quanto ao resto, gosto da ideia do caminho que vamos balizando. Sugeria 2 coisas que me parecem importantes. Uma é a luz que vamos colocando nesse caminho, que pode salientar o melhor ou o pior dos nossos filhos. A outra é que nós estamos a caminhar com eles, e eles também olham para nós. Dois princípios: a atenção e a modelagem.

A resiliência também é outra conversa, pois além de se desenvolver/estimular, depois existem aquelas coisas inatas, como os pés do Cristiano, ou do Kelvin (maldade!), ou o talento para algo, que faz com que algumas crianças, em condições adversas superem obstáculos.

E depois também temos a personalidade dos miúdos, e a história (fantasmas) das famílias, e os tempos históricos, e tantas outras coisas. Mas sem duvida, que muito, ou alguma coisa, está mesmo nas mãos dos pais, e por isso podem pôr as mãos na obra”: por João Guerra, pai de 3, irmão de 1, tio de 1, pedopsiquiatra.

P.P.S. Faltam ainda 1 noção importante: “ o 1º princípio da parentalidade é cuidar de si como pessoa” e cuidar do casal. Se este for feliz o resto vem por arrasto. E é esta base emocional de felicidade que assegura que com erros e enganos lá vamos indo no sentido certo.

João Moreira Pinto

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