Vidas de e com cães

Infelizmente, já recebi muitas crianças vítimas de ataques caninos. Demasiadas. Surpreendentemente ou não, a maioria dos ataques são dos cães lá de casa. Felizmente, na maioria das vezes não resultam em grande prejuízo para a criança. Muito menos são os casos de morte. Sabe Deus como fico preocupado cada vez que tenho um destes casos em mãos. Em casa, temos um cão, uma versão rafeira de Labrador Retriever, que não é propriamente pequeno. Ele já existia, antes de nascer o JM. Vive connosco dentro do apartamento, pelo que passam-se longos períodos, em que estão os dois no mesmo compartimento, sem vigilância atenta de nenhum adulto. Apesar disto, não me considero negligente.

Desde pequeno que gosto de cães, embora não tenha crescido com um. Escrevi já aqui, alguns dos benefícios imunológicos para a criança de ter um cão. Existem outros, como menor sedentarismo, maior socialização, melhor noção de espaço, etc.. Nunca vi ninguém prescrever um cão a uma criança ou família. Existe até um artigo que conclui que os riscos de ter um cão não superam o eventuais benefícios, pelo que, em linguagem médica, não estão recomendados. Não sou veterinário, nem sei dizer se existem efectivamente raças ‘más. Não sei sequer o que significa este conceito. Partilho com a Sónia Morais Santos todas as dúvidas que deixou no ar. Existem cães maus por natureza, independentemente da raça, como há más pessoas? Uns e outros existem mesmo ou são apenas produtos de más experiências, educação agressiva, vidas difíceis?  Independentemente destas repostas, parece-me abusivo classificar todo e qualquer cão como potencial ameaça de morte. Como em tudo, é preciso bom senso.

[Momento de ternura captado pela nossa Mãe, há uns meses; fonte: facebook.com]

Do que já vivi, em casa e no hospital, apercebo-me que existe sempre uma razão por trás do ataque do cão. Geralmente há a história de uma calcadela, de luta por um brinquedo, da intromissão com a comida ou com as crias do bicho. São justificações que, em caso algum devem passar incólumes. Ter um cão em casa, por mais pequeno que ele seja, é ter um brinquedo de peluche que ferra. Se temos todos os cuidados para que a criança ande por casa longe das tomadas, protegida das esquinas dos móveis, a salvo de salpicos de óleo e água a ferver, mais cuidado deveremos ter com os animais de estimação. Não é preciso estar sempre a olhar para a criança, se lhes ensinarmos como prevenir a asneira, tal como as ensinamos a evitar outros riscos. Há regras básicas que os pais deverão ter quando decidem ter um cão ou outro animal de estimação.

Primeira regra, não ter um animal em casa sobre o qual não se tem o completo domínio. Se não se consegue impor sobre o cão, principalmente quando ele está furioso com alguma coisa, não o pode ter em casa, muito menos junto dos seus filhos. Mais, o cão tem que saber cumprir regras básicas, como senta, fica, não puxa (a trela), larga, entre outras.

Segunda regra de ouro, a criança deve ser educada desde cedo a conviver com aquele brinquedo vivo. Se não pode colocar os dedos na tomada, também não pode roubar comida ao cão. Se não pode saltar em cima da cama, também não pode puxar o rabo do animal. Se não pode ‘ver com as mãos’ o que a Mãe está a cozinhar, também não pode tirar o brinquedo de uma boca cheia de dentes afiados. São medidas de prevenção, como todas as outras.

[fonte: wikipedia.org]

Terceira regra, não ignorar os sinais de alarme. Muitos dos animais que atacam as pessoas têm antecedentes de agressividade contra outros cães ou seres humanos. Um caso recente de um Dogo Argentino, no Porto, em que trágica e estupidamente uma menina de 18 meses perdeu a vida, tinha já currículo nos bombeiros por pedidos de socorro anteriores, nomeadamente pela senhora que cuidava dos cães (ao que parece seriam dois), durante o dia. Poder-se-ia ter evitado a tragédia, se aqueles cães tivessem sido dominados antes.

Finalmente, recomendo a leitura de outro texto da Academia Americana de Pediatria sobre Prevenção de Mordedura de Cão e Dicas para Escolher um Animal de Estimação. Espero que sirvam de ajuda, na escolha do próximo residente aí de casa.

João Moreira Pinto

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